Entrevista: a natureza como projeto
Radicado no Brasil há 20 anos, Marko Brajovic defende uma arquitetura guiada pela inteligência natural e pelo diálogo entre tecnologia e saberes ancestrais
Antes de erguer uma construção ou criar uma instalação efêmera, o arquiteto croata Marko Brajovic faz uma pergunta provocativa: qual é a mensagem que queremos com cada projeto? Para o diretor criativo e fundador do Atelier Marko Brajovic, a resposta vai muito além da escala humana. Em suas criações, aves, polinizadores, vegetação nativa e o próprio bioma ganham o status de interlocutores ativos de uma arquitetura que precisa aprender a colaborar, e não a dominar.
Radicado no Brasil há 20 anos, destino que escolheu após se apaixonar pela sinergia entre a Amazônia e a força urbana de São Paulo, Marko é pós-graduado em Arquitetura Biodigital e tem a natureza e o fazer artesanal como pilares de seus projetos. Nesta entrevista exclusiva para a Casa CLAUDIA, ele desconstrói o discurso raso da sustentabilidade quantitativa, analisa os desafios de transformar metrópoles em “cidades-floresta” e nos convida a repensar a nossa própria presença no planeta: “Nós não vamos para a natureza. Nós somos a natureza.”
Casa CLAUDIA: Você nasceu na Croácia, estudou em Barcelona e escolheu o Brasil para viver há quase duas décadas. O que encontrou aqui que o fez optar pelo país para viver e desenvolver sua arquitetura?
Marko Brajovic: Saí da Croácia jovem, estudei arquitetura em Veneza e fiz pós-graduação em Barcelona. Nesse período, morei durante um ano na Costa Rica, passei uma temporada no Japão e cheguei ao Brasil como professor, na Amazônia. Minhas primeiras vindas [para o Brasil] foram para a Amazônia. Numa delas, fui convidado para palestrar em São Paulo: na Escola da Cidade, na USP, no Mackenzie e no IED, em um período de 10 dias. Ao voltar para Barcelona, recebi um convite do IED para dirigir o departamento de Design de Interiores e de Design de Produtos por dois anos.
Esses 10 dias foram muito lindos, pois conheci a Amazônia, que era um templo para mim. Mas quando conheci São Paulo, entendi uma outra dimensão desta relação do ser humano com as cidades, com a natureza. Fiquei encantado e seduzido por poder trabalhar, criar e transformar a partir de uma visão do que acontece dentro da cidade, de uma cidade imersa na Mata Atlântica, como São Paulo. Assim, dois anos viraram 20.
O fato de eu ter criado raízes aqui decorre desta conexão profunda com a natureza brasileira em todos seus aspectos: a floresta, as pessoas e a criação dentro desse contexto. Eu me sentia revigorado criativamente, e isso era muito influenciado por todas essas dimensões naturais que encontrei aqui.
CC: Seu mestrado e doutorado são em Arquitetura Genética, um conceito que ainda desperta curiosidade. Como você explica essa abordagem para quem não é da área?
MB: O mestrado em Arquitetura Genética, hoje chamado Arquitetura Biodigital, tem suas origens na Universidade Internacional de Catalunha, uma precursora de uma visão biológica dos processos de inspiração e metodologias criativas a partir da observação da inteligência da natureza.
Quando a gente fala Arquitetura Genética, não é sobre a genética em si. É sobre procurar, metaforicamente, o código genético das soluções tecnológicas da natureza, entendendo-a como uma designer com 3,8 bilhões de anos. […] A biomimética estuda esses modelos biológicos, enquanto na Arquitetura Biodigital o [resultado] é a morfogênese: impermeabilidade, características termoacústicas e cores estruturais aplicadas aos processos projetuais.
No Atelier, nos inspiramos na natureza, emulamos essas soluções via softwares paramétricos e as aplicamos no processo construtivo. Esse é o percurso do processo criativo: inspiração na natureza, emulação digital e aplicação e construção, geralmente artesanal, não industrial. Temos que ir do digital para o artesanal, valorizar o [fazer] manual no Brasil e criar produtos únicos, assim como a natureza. Cada organismo é único, por isso, eu não estou interessado na reprodução industrial de produtos iguais.
CC: São esses conhecimentos que a natureza ensina e que, talvez, as escolas formais não consigam atingir nesse nível de compreensão?
MB: Acredito em escolas vivas. Os conhecimentos também nascem dentro das comunidades. A visão acadêmica eurocêntrica tem grandes possibilidades de estudo, mas também limitações epistemológicas do entendimento da natureza. Quando unimos a visão científica ocidental com a ciência, a tecnologia da ancestralidade e a nossa sensibilidade fenomenológica, ampliamos as diferentes maneiras de observar o fenômeno que é a vida.
CC: Você costuma destacar essa questão dos conhecimentos ancestrais também como uma ferramenta de enfrentamento às mudanças climáticas. Quais conhecimentos talvez devêssemos recuperar?
MB: A era industrial, com todas suas conquistas, traz uma série de problemas sistêmicos, de entendimento da arquitetura e da maneira como se constrói, [como] esta visão one-fits-all, de que tudo pode ser [construído] em qualquer lugar, de que a arquitetura deve ser superior ou controlar os fenômenos naturais. Em um mundo em transformação, as relações são muito mais importantes no sistema do que a solidez de uma estrutura. Numa transformação climática, a rigidez de uma arquitetura não vai ser a solução, mas, sim, a capacidade de adaptação, de interação e de colaboração dessas estruturas, tanto arquitetônicas e urbanas, quanto sociais e culturais.
Nesse [sentido], quando falamos das arquiteturas ancestrais, não falamos apenas das soluções bioclimáticas, de materiais regenerativos, de descentralização de grandes assentamentos. Estamos falando de uma resiliência civilizatória, social e cultural, que se baseia nas relações e na colaboração. O aprendizado da arquitetura ancestral, vernacular, tanto no Brasil quanto em nossos lugares, é indispensável como modelo e como prática a ser implementada dentro da nossa sociedade. Não é uma questão sobre qual modelo se adapta melhor ao futuro em transformação. É uma coexistência de diferentes modelos, um aprendendo com o outro.
Quando nos inspiramos na ancestralidade, [não se trata] de ser uma cópia de formas ou grafismos, mas de como implementar esses sistemas em nossos projetos e vice-versa, de como compartilhar o conhecimento dos nossos projetos com grupos que trabalham na construção das próprias comunidades. São aberturas de intercâmbio de conhecimentos, sempre dos dois lados.
CC: Nesse sentido, resgatar as inteligências ancestrais também ajuda a combater o esgotamento que vivenciamos nas sociedades modernas?
MB: É impossível separar esses planos. A crise climática é uma mudança que já aconteceu e que vai acontecer, porque toda a natureza muda. O ser humano baseou as arquiteturas e as relações sobre um determinismo ecológico e histórico. As crises climáticas, de saúde, políticas, sociais, psicológicas estão inter-relacionadas, não há como separá-las.
CC: Você comentou que gostaria de transformar cidades em parques. Como seria o desenho dessas cidades?
MB: As cidades construídas são o nosso maior gargalo e nosso grande impacto ecológico e psíquico. É fundamental que as cidades atuais sejam transformadas. Quando falamos em cidade-parque, a ideia é de um urbanismo no qual os parques funcionam dentro do metabolismo urbano. Os primeiros estudos sobre Biópolis ou Fitópolis, conceitos de Stefano Mancuso, dão a ideia de que os parques não são decoração, eles definem como o ser humano se relaciona com a natureza dentro das cidades.
Ainda separamos o que é a cidade do que é o parque. O Central Park, por exemplo, é basicamente um recorte verde dentro da cidade. Ele não faz parte do dia a dia. O mesmo acontece quando falamos: “Neste fim de semana vou para a natureza, vou para o parque”, como se não fôssemos a natureza. Quando entendemos que somos natureza e que as cidades podem ser uma cidade-floresta, elas precisam [contemplar] processos operacionais descentralizados, compartilhados, distribuídos, assim como ocorre nas florestas. Elas precisam conter massas verdes capazes de resfriar o ambiente, criar condições para que os polinizadores consigam operar dentro dela.
Este resgate das áreas verdes tem questões e desafios incríveis, mas precisa começar por algum lugar, devolvendo as áreas verdes às cidades. É uma questão de prioridades, de urgências, mas também de evolução da espécie humana para a consciência de que somos natureza e de como queremos habitar esse mundo.
CC: É relativamente fácil que iniciativas nesse sentido sejam realizadas não só pelo poder público, mas também pelas entidades privadas? O mercado imobiliário, por exemplo, tem investido em fachadas verdes como forma de aproximar os empreendimentos da natureza. Essas ações, mesmo que pontuais, contribuem para esse resgate ou isso ainda é pouco?
MB: O mercado imobiliário é um exemplo a posteriori. É uma consequência da leitura de tendências sobre o momento da biofilia, da necessidade do ser humano de se relacionar com a natureza e o uso desses sistemas dentro da maximização de venda dos produtos imobiliários. Honestamente, vejo poucos casos genuínos. A implicação real estaria na criação de áreas verdes nas quais a vegetação conseguisse se autossustentar e se comunicar, não ficando recortada. A floresta é floresta porque todos os organismos estão interconectados. Na maioria dos empreendimentos, [isso ainda] é um atrativo de venda mais do que uma solução real de reflorestar as nossas cidades.
Ainda assim, vejo [essas iniciativas] como algo positivo, mas elas precisam evoluir para uma visão sistêmica. Não basta só ver a área verde, é preciso se relacionar com ela.
CC: Você desenvolve projetos de arquitetura, de design, de cenografia, instalações artísticas. A natureza é a única fonte de inspiração ou há outros elementos que se somam a ela?
MB: Cada vez mais nos abrimos para diversas áreas que nos inspiram, mas elas vêm, inevitavelmente, da paixão, do amor e da missão de trazer a natureza como elemento inspiracional, de processo criativo e de comunicação dentro dos projetos.
Quando transitamos de um projeto arquitetônico para um de arquitetura efêmera ou de brand experience (um pavilhão, uma instalação ou uma exposição) a temática não vem dessa dimensão, mas de outra, cultural, como nas exposições sobre o Stanley Kubrick ou o David Bowie.
Agora, quando trabalhamos com marcas, a maior parte delas procuram essa dimensão [de inspiração na natureza], pois são empresas sensíveis a ela, como é o caso da Natura. Um dos nossos últimos projetos foi apresentado em setembro, no Rock in Rio. O que posso adiantar é que será uma experiência inspirada na floresta, com estruturas pré-fabricadas (que serão construídas e desmontadas facilmente, sem desperdícios) e que a cobertura desse pavilhão será executada com folhas de plástico reciclado de embalagens da marca inspiradas nas folhas de cacau e de cupuaçu. Será uma “pele” arquitetônica. O vento vai passar por entre essas folhas criando movimento e sombra. Dessa maneira, cria-se um efeito sensorial dessa relação altamente instintiva de algo que o ser humano vivenciou por milhares de anos, que é viver na floresta.
CC: Você acredita que, por atingir mais pessoas, esse tipo de projeto tem maior potencial para provocar reflexões ambientais do que outros, como os residenciais?
MB: Ambos têm sua potência de transformação. Arquiteturas vivenciadas, como casas, hotéis ou espaços comerciais, transformam na dimensão do cotidiano, pelo tempo estendido de relacionamento, além de comunicar valores e princípios dentro da escala de como habitamos o planeta. Já a arquitetura efêmera trabalha na dimensão do impacto, que também transforma muito. Nela, também podemos experimentar técnicas que, depois, aplicamos [nos projetos arquitetônicos]. Além disso, ela tem uma dimensão fenomenológica, pois coloca as pessoas num estado de ânimo excepcional de sons, de cheiros, de gravidade e, nesse lugar, elas saem da zona de conforto e abrem a própria sensorialidade instintiva, [vivenciando um] download de sensações e de valores. É nesse estado de ânimo que [focamos] quando trabalhamos com arquiteturas altamente sensoriais e [expostas por] pouco tempo. Esse tipo de projeto ainda atinge um público muito diversificado, democratizando os acessos, eu acho isso muito interessante.
CC: Como o Atelier equilibra as questões relacionadas à sustentabilidade e à gestão de recursos materiais em seus projetos, especialmente nesses de caráter temporário?
MB: Para mim, em evento, um pavilhão ou uma arquitetura que se neutralizou enquanto carbono não se justifica [por si só]. Quando decidimos participar de um evento, estamos cientes sobre o impacto que estamos [gerando]. Não adianta sermos hipócritas ou nos escondermos atrás de números e dizer: “Somos carbono zero, podemos fazer isso”. Entretanto, no momento em que o estamos realizando, temos que ter consciência ética do porquê estamos fazendo esse evento e o que queremos falar a partir dele. Qual é a mensagem, qual é o impacto que queremos trazer, não só o quantitativo? Depois que cumprimos todos os números, o que mais podemos fazer? É isso o que me interessa.
E aí aparece a importância de um cliente bom. Não há projeto bom sem um cliente bom. Estamos num momento no qual a arquitetura tem que trazer soluções novas, e as soluções novas nascem só da experimentação. Quando o mercado está alinhado com a possibilidade de experimentar, de evoluir, é que ele está olhando para o futuro.
CC: Vivemos um momento no qual a arquitetura ainda é muito voltada para o ser humano. Quais outros clientes deveriam ser considerados no processo de desenvolvimento arquitetônico?
MB: Gosto muito da ideia de sairmos desta unidirecionalidade do cliente. Os outros seres também são clientes, porque há diálogo, há troca, uma negociação constante. E essa negociação é importantíssima! O cliente de uma flor é o polinizador, nessa relação de negociação e de interesse mútuo. As cidades atuais são grandes exterminadoras de pássaros [com esses prédios] envidraçados, chamados de inteligentes. Como abrigar os pássaros? Como [olhar para] outros mamíferos, como cachorros e gatos, para que possam caminhar nas cidades sem queimar as patas?
Como todos esses outros clientes — eu gosto muito de chamar de gente humana e gente não humana, porque todos são gente —, dialogam com nossas arquiteturas? É fundamental o mercado se abrir ao outro, às conexões. Entender que a cidade é nossa casa e valorizar o espaço coletivo, essa ideia da coletividade como uma força de entendimento da nossa espécie.





