Havia tempos Luiz Paulo Andrade e Felipe Scroback cultivavam o sonho de viver em casas com jardim. A ideia ganhou fôlego ao descobrirem uma rua sem saída a poucos passos do escritório, na Vila Madalena, zona oeste de São Paulo. Animado, Felipe alugou uma casa ali, onde morou por dois anos, de olho em futuras possibilidades – iniciativa fundamental para a dupla arrematar, em 2009, um lote após o outro, por R$ 1 200 o m², logo que foram colocados à venda.
Como eles enxugaram os custos
Antes da compra dos terrenos de 160 m2, eles não pensavam em morar lado a lado. Mas essa casualidade os ajudou a enxugar os custos da construção. Depois de pôr as antigas moradias abaixo, os profssionais se lançaram numa ação conjunta para erguer as residências de concreto armado, material que caracteriza sua produção como arquitetos. “Graças à parceria no projeto, na concretagem e na contratação de mão de obra e fornecedores, economizamos 15% no valor total da obra”, revela Luiz. “É fundamental ter um projeto defnido, inclusive fnanceiramente, gerenciar as etapas e envolver pessoas companheiras.” Apesar da estrutura única (pronta em cinco dias), as plantas são diferentes e personalizadas.
Casa 1 - 133m²: envolta em claridade
Em dias ensolarados, ninguém acende a luz na casa de Felipe Scroback antes das 18 horas. A luminosidade das tardes perpassa as generosas vidraças posicionadas na frente e nos fundos do grande salão no térreo, num irresistível apelo para a família usufruir desse clima caloroso. Talvez daí venha o repentino desejo do arquiteto de aventurar-se no saboroso universo das panelas e caçarolas. Integrada à sala, a cozinha ganhou importância – e uma ilha com equipamentos de última geração. O próximo projeto de Felipe é tornar-se um chef tarimbado para desfrutar da companhia dos amigos com comidinhas assinadas por ele. “Evitei paredes para aumentar a sensação de amplitude e estimular a vivência entre a gente”, diz.
Casa 2 - 195m²: a alegria vem das cores
A princípio, a ideia de uma casa inteira de concreto soa glacial. Na morada de Luiz Paulo Andrade, porém, a vivacidade criada pelo grande painel de ladrilhos hidráulicos faz um contraponto balanceado à sobriedade do cimento, sem tirar o caráter do projeto. “Nós não exigíamos luxo”, assinala o arquiteto. Como seu vizinho, ele privilegiou uma sala de estar ampla, aberta para a cozinha e o jardim. A proposta garante ventilação e iluminação naturais permanentes e, de quebra, economia de eletricidade. “Minha conta de luz baixou 30% desde que me mudei para cá”, comemora. Totalmente integrado ao interior, o quintal marca a primeira incursão dos sócios num projeto de paisagismo. A estreia foi boa!
Evelyn Müller
As diferenças entre as casas começam no acabamento dos portões (Dinho Serralheiro) de garagem (esmalte sintético cinza em um e zarcão no outro, ambos da Suvinil). Os pisos seguem a mesma inclinação, de 10% (fulgê à esquerda e ladrilho antiderrapante 64 Dados à direita, da Dalle Piagge).
Casa 1. Solta da parede estrutural que separa as duas casas, a escada de ferro (Escada Cia) está chumbada na viga baldrame do piso e parafusada na viga invertida do teto. Foi pintada com esmalte sintético fosco verde (Suvinil). A porta pivotante é de madeira de demolição. Tapete da Missoni Home.
Casa 1. Uma das máximas do projeto, a manutenção fácil determinou a escolha do piso de granilite polido (Revestimento Vilar), com juntas de dilatação, no mesmo tom acinzentado da construção. Já o caminho da tubulação elétrica aparente (Santil) foi estudado para garantir efeito visual e iluminação cenográfca. As esquadrias são de alumínio com pintura anodizada preta (Integral Sudeste). A escada foi pintada de azul e parece uma escultura
Casa 1. Com medidas mais enxutas do que a casa vizinha, esta construção reservou um bom espaço para o jardim nos fundos e lançou mão de apenas mais um pavimento destinado à área íntima, com três quartos. As dimensões do lote (8 x 20 m) facilitaram a implantação, que buscava insolação, ventilação e permeabilidade do solo. Além da luz natural farta, o aquecimento solar (Tecnosol) ajuda a reduzir o consumo de energia elétrica.
Casa 1. O acabamento branco (Formica) contrasta com a melamina no padrão amêndola rústica da marcenaria (Contexto Planejados). Sobre a ilha de Corian (DuPont, fornecida pela Avitá Design), a coifa (Falmec) se encarrega de evitar que a fumaça se espalhe pelo espaço.
Casa 1. Visual cru. Em estado bruto, as vigas revelam a inspiração modernista da obra. Nem os furos deixados pelos parafusos que travavam as formas da estrutura foram camufados. O segredo foi alinhá-los durante a execução.
Casa 1. Textura natural. Para que o concreto pudesse fcar aparente sem deteriorar, as superfícies externas foram lixadas, depois receberam acabamento de estuque, novo lixamento e, por fm, uma demão de verniz acrílico incolor à base de água. Assim resistem melhor às intempéries.
Casa 1. Harmonia em cinza. Revestido de fulgê com grãos brancos, pretos e acinzentados, o paredão repete o tom predominante da construção e valoriza a composição do ambiente.
Casa 2. Um vistoso painel de ladrilhos hidráulicos (Dalle Piagge) forra a parede da cozinha. Ao redor da bancada de concreto, cadeiras azuis de metal (A Lot Of). O piso é de granilite polido branco.
Casa 2. Concretadas junto com as colunas, as prateleiras fcam presas à parede estrutural que divide as duas residências. O móvel de melamina no padrão amêndola rústica (Contexto Planejados) suaviza o visual duro do cimento. Depois de pronto, o piso de granilite foi fnalizado com resina à base de água. As esquadrias de alumínio receberam pintura eletrostática branca.
Casa 2. O piso de granilite para apoiar as banquetas divide espaço com a vegetação rasteira de grama-amendoim. Entraram no paisagismo fênix, iuca, jabuticabeira e murta.
Casa 2. Quando comprou o lote de 160 m², o autor do projeto imaginou uma casa livre de barreiras visuais, voltada para o lazer. Como gosta de cozinhar para os amigos, Luiz Paulo Andrade desenhou uma conexão entre as bancadas da cozinha e do jardim. Com esse recurso, criou mais espaço para acomodar seus convidados. A área íntima, com três dormitórios, fca no primeiro pavimento. No segundo, alocou-se o quarto de serviço.
Casa 2. Chumbada à parede, a escada de alvenaria também se conecta à viga do teto. São do artista gráfco americano Keith Haring os adesivos trazidos de uma viagem à Áustria. A cuba de Corian fca fora do lavabo, cuja porta exibe acabamento de laminado no padrão amêndola.
Casa 2. Vocação múltipla. Na cozinha, a bancada de Corian que apoia pia e fogão é sustentada por tampos de concreto que se ligam à mesa. O conjunto, uma peça única, faz parte da estrutura da casa.
Casa 2. Efeito visual. Para conseguir este resultado plástico na parede da suíte do casal, o arquiteto reutilizou as fôrmas de madeira usadas na casa vizinha. Foram cortadas e dispostas lado a lado na execução da obra.
Casa 2. Foco na praticidade. Colocada sobre o concreto, a bancada de Corian do jardim está interligada à cozinha pela janela de correr, que funciona como passa-pratos.
Casa 2. Estampas assinadas. Com grafsmos criados por nomes famosos, como o arquiteto Paulo Mendes da Rocha e o artista plástico Flávio de Carvalho, os ladrilhos hidráulicos assentados com argamassa formam o belo painel de 6,50 x 2,50 m fnalizado com verniz.