Cabana em Tiradentes feita de pedra e madeira da região
A casa confortável e simples tem piso de cimento, estrutura do telhado de eucalipto e paredes de pedra do local. Voltada para o sol, ela fica iluminada o ano todo
Reportagem Simone Raitzik (visual e texto) | Design Júlia Blumenschein | Fotos André Nazareth | Ilustração Campoy Estúdio
Há oito anos, numa viagem de fm de semana, os arquitetos cariocas Ricardo Hachiya e Luiza Fernandes experimentaram o feitiço de Tiradentes. “Foi impressionante. Não parávamos de pensar neste pedacinho de Minas. A estrada com os cupinzeiros, a comida no fogão a lenha, a arquitetura... Havia uma conspiração encantadora de fatores. Seis meses depois, voltamos para desenvolver uma linha de móveis usando matéria-prima e mão de obra locais. Vínhamos uma vez por mês, felizes da vida”, lembra Luiza. Ao virar habituê, o casal passou a se embrenhar mato adentro, visitando um carpinteiro habilidoso, um serralheiro especializado em esquadrias... “Um dia, encontramos este terreno, num vale com jeito de roça. Toda vez dávamos uma conferida. O namoro acabou em compra, e a casa foi construída em um ano, só com o pessoal da região”, relata Ricardo.
André Nazareth
Dois painéis fxos de vidro (1,60 x 1,60 m) recortam a parede estrutural montada com pedras típicas do local, assentadas sem rejunte aparente.
Luiza e Ricardo preferiram materiais locais e de demolição, como as toras de baraúna (40 cm de largura e 10 cm de espessura) que servem de banco em frente à lareira e criam um nicho para armazenar gravetos. “É uma madeira resistente, bem rústica”, diz Ricardo.
Outra espécie marcante é o eucalipto da estrutura. No telhado, cuja cumeeira atinge 4,50 m, as toras (Esteio) medem até 30 cm de diâmetro. Já o forro emprega madeira de demolição. “Clareamos tudo com uma demão de tinta esmalte branca diluída em água, em partes iguais”, diz Ricardo.
Na varanda, o piso de itaúba ganhou uma demão de óleo automotivo queimado como proteção. A solução é econômica, porém escurece a madeira. O ideal, segundo os arquitetos, seria usar verniz marítimo fosco.
Integrada, toda a área interna tem o mesmo piso, feito pelo empreiteiro Luiz Cláudio Sant’Anna Mendes: placas de cimento queimado (1,20 x 1,20 m), delimitadas por réguas de vidro de 4 mm de espessura e 2 cm de altura. “Fixamos as lâminas no contrapiso. Depois preenchemos os quadrados com massa de cimento. A última camada, de 0,5 cm, leva a mistura com Pó Xadrez [Lanxess] para chegar ao tom desejado”, conta Ricardo.
A bancada da pia e o revestimento do fogão a lenha foram moldados na obra com cimento estrutural e impermeabilizados depois de prontos com três demãos de resina à base de água. Nas paredes, o emboço rústico recebeu acabamento de tinta acrílica.
Duas paredes estruturais de 50 cm de espessura, montadas com pedra, delimitam as extremidades da casa. como nos galpões, não há barreiras internas: uma cortina divide a suíte da sala, separada da cozinha por um balcão. No porão, que aproveita o leve aclive do lote, os donos pretendem fazer uma sauna.
Na suíte do casal, a ligação com a varanda e com a vista para a serra se dá pela porta de correr (as duas folhas somam 4 x 3,50 m, execução da Antiquos Metais Artísticos). Montada com esquadrias de ferro de aspecto industrial, ela corre por um trilho com roldanas aparentes. O visual enferrujado e rústico é proposital: aplicou-se ácido muriático no metal e, depois da limpeza, uma demão de verniz Fuseprotec (Viapol) fosco.
Para proteger a varanda, elevada a 2 m de altura para vencer o aclive do terreno, um banco de itaúba maciça (35 cm de largura e 45 cm de altura) serve de guarda-corpo.