A rua estreita e discreta bem que poderia estar numa cidade pequena. Mas fica no coração boêmio de São Paulo, entre os movimentados bairros de Pinheiros e Vila Madalena. Nesse cenário improvável, uns poucos pares de tapume cobriam os 8 m da frente de um terreno vazio e quase plano, de 192 m2. Sem prédios nos arredores para atrapalhar a vista, o lugar animou o arquiteto Tito Ficarelli a construir sua casa. Depois de quatro meses de uma obra bem planejada, que empregou basicamente estrutura metálica e blocos de concreto, Tito se mudou para lá. Levou apenas uma mala, o baixo e a bicicleta.
Na hora de decorar
“O lugar ganhou personalidade aos poucos. Desenhei móveis e objetos, e me presentearam com outras peças”, explica ele, que reservou quase 40% do lote para o jardim. Daí os grandes vãos com esquadrias envidraçadas: eles integram os ambientes internos ao verde lá fora, multiplicando a área da construção. As ideias brotaram e ganharam forma sob a presença vigilante do proprietário, que adotou o conceito de fexibilidade em cada detalhe construtivo ou de acabamento. “Tudo foi pensado para se ajustar facilmente a qualquer realidade, seja morando sozinho, como agora, seja com mais gente ou até com crianças. A estrutura metálica, o fechamento com blocos de concreto e as instalações hidráulicas concentradas em apenas um canto são os únicos itens fxos. Posso mudar todo o restante sem quebra-quebra”, diz Tito Ficarelli. A ausência de divisórias amplia consideravelmente os espaços. O que não impede de, no futuro, criar paredes entre os ambientes. A teoria se estende ao mobiliário: modular e com rodízios, também é ajustável.
* Largura x profundidade x altura. / Preços pesquisados entre 8 de abril e 11 de maio de 2012, sujeitos à alteração.
A incrível casa de Tito Ficarelli
Gabriel Arantes
“Eu estava procurando um imóvel para reformar. Quando encontrei este terreno, abracei a oportunidade de fazer tudo desde o início. Com o orçamento enxuto, coloquei em prática soluções eficientes que aprendi na teoria. Os pequenos contratempos nem viravam problema porque acompanhei tudo de perto”, contou Tito Ficarelli, músico, arquiteto e proprietário da casa.
Em toda a construção, as únicas aberturas são as esquadrias frontais de alumínio (Van-Mar). Essas soluções baratearam e agilizaram a obra, cujo custo foi de R$ 235 mil, ou R$ 1 550 o m2 (pouco acima do valor estabelecido em 2011 pelo Índice A para construções de padrão médio na região Sudeste).
O vão livre de 7,60 m resulta de dois fatores: vigas metálicas de 30 cm de altura (produzidas pela Aço e Ferro Guilherme e montadas pela Iron Logic) e preenchimento da laje pré-moldada (Lajes Itaim) do piso superior com isopor, o que a deixou mais leve. O piso, feito na obra, emprega partes iguais de cimento cinza e cimento estrutural branco. Nas paredes, blocos de concreto da RIC.
Acima, a escada desenhada pelo arquiteto foi executada em duas partes. A primeira, fabricada com freijó pela M3 Marcenaria, também funciona como estante dos dois lados. “Solta, a peça pode ser encostada na parede e mudar a forma de circulação.” A parte de aço (Jet Calhas) recebeu esmalte sintético brilhante Coralit (Coral).
“Aparentes, os elementos de arquitetura se destacam”, fala Tito, o morador . O tom das vigas é do Primer Cromato de Zinco Verde (Lukscolor). Sem acabamento, os módulos de compensado de 1 m de comprimento estão encaixados numa placa de madeira fxada na parede. Tapete By Kamy, mesas de centro Dbox.
O acesso ao solário se dá pela mesma escada que nasce no térre. Ela está protegida por uma estrutura de aço e vidro laminado (Severino Vidraceiro), espécie de claraboia gigante. O paisagismo não interfere na vista. “O pandano e as lavandas, plantadas no trio de vasos, gostam de sol e precisam de rega duas vezes por semana”, diz o paisagista Roberto Riscala.
Da rua se vê a casa através do portão de aço (jet calhas) vazado. Encaixada nos fundos do terreno de 8 x 35 m, ela ocupa toda a largura disponível, mas libera o recuo frontal, de 15 m, para o jardim e a garagem. No térreo, as instalações hidráulicas da cozinha coincidem com a prumada do banheiro e a caixa-d’água.
Pendentes, arandelas e interruptores estão conectados por meio de tubulação galvanizada aparente. Para que a claridade não atrapalhe o sono, cortinas blecaute, da Castelo da Cortina, correm em trilhos ao longo de toda a janela frontal da casa. A luminária azul de piso (Kare) dá um toque retrô, assim como o aparador criado pelo próprio arquiteto com discos de vinil.
A área íntima se concentra no piso superior. Seguindo o conceito da flexibilidade, o quarto pode, a qualquer momento, ser dividido em dois. No banheiro, sem janelas, a iluminação vem do alto, enquanto a farta luz natural que entra pela varanda e pelo acesso à escada dispensa o acionamento de luminárias durante o dia. O terraço que funciona como extensão da sala no térreo se repete em cima. Mas, aqui, o arquiteto estendeu parte da esquadria (ao lado da cama) até o limite da laje. “Isso dá movimento à fachada e ainda deixa o quarto com 1,60 m a mais de largura. Não perco a sensação de amplitude e tenho a escolha de fcar ao ar livre ou dentro de casa contemplando o mesmo cenário”, afrma Tito, o morador.
Diante da escada, o banheiro deixa aparentes apenas as vigas metálicas. Ladrilhos hidráulicos (20 x 20 cm) da Dalle Piagge cobrem parede e piso da área do boxe. O mesmo revestimento de cimento queimado do quarto e da sala também está no chão, na frente da pia. A bancada de Silestone rojo eros é da Fremar. Embaixo dela, uma placa de OSB fecha o espaço destinado a um futuro gabinete. Colado na parede, o espelho sobre a bancada preenche todo o vão que vai da porta até o boxe (1,76 m).
Placas de cimento de 1 x 1 m (Santorino Pisos) indicam o caminho da rua à casa. Os degraus são de itaúba, com as réguas fixadas sobre tubos metálicos pintados com a mesma cor do portão (Suvinil). Para contrastar com o tom do concreto, a fachada leva tinta acrílica fosca plum brown, da Sherwin-Williams.
Durante quatro meses, a cada semana cumpria-se uma etapa da obra. “Assim dá para fugir do acúmulo de atrasos, e fica mais fácil controlar e cobrar o empreiteiro e os fornecedores”, diz Tito. Confira na ilustração, de baixo para cima, as principais fases da construção, depois de erguidos os muros laterais e do fundo.
1. Estacas hélice: solução ágil com barulho e impacto baixos, boa para não incomodar a vizinhança. Foram usadas 12 estacas, duas abaixo de cada pilar e duas centrais. 2. Fundação baldrame: vigas de concreto unem as estacas. Escolha possível porque o terreno é firme e a carga, leve. 3. Laje do térreo: antes de concretar, cobriu-se a superfície com plástico comum de obra para evitar a passagem de umidade à laje. Contrapiso de 5 cm. 4. estrutura metálica: montagem dos cinco pilares e das vigas do térreo e do piso superior. 5. Laje do piso superior: concretagem com contrapiso de 5 cm. A espessura total é de 30 cm. 6. Paredes do térreo: fechamento com blocos de concreto de 39 x 19 x 14 cm. 7. Laje de cobertura: concretagem da laje de 30 cm, com contrapiso de 5 cm de espessura. 8. Paredes do piso superior: fechamento com blocos de concreto de 39 x 19 x 14 cm. 9. Cobertura: impermeabilização da laje e montagem da estrutura de aço com vidro para iluminação natural, ventilação e acesso.
Área: 152 m2. Ano do projeto e conclusão da obra: 2011. Projetos de arquitetura, elétrico e hidráulico: Arkitito. Projeto estrutural: Marcelo Mello. Sondagem: Ação Engenharia. Fundação: A. Lopes Estacas. Paisagismo: Claudio Fonseca e Roberto Riscala