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“O Rio de Janeiro tem chance de se reinventar, corrigir erros e beneficiar a população”

Titular de um dos maiores escritórios de arquitetura do mundo, Richard Rogers fala de urbanismo, das Olimpíadas na capital inglesa em 2012 e no Rio de Janeiro em 2016

Um título para uma foto sem titulo

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Nem o calor carioca nem o cansaço da viagem abalaram o bom humor de sir Richard Rogers no dia de sua chegada ao Rio de Janeiro. Depois de realizar um passeio de helicóptero e uma palestra no Centro Cultural dos Correios, o arquiteto de 77 anos, nascido na Itália e criado na Inglaterra, teve fôlego para conversar com ARQUITETURA & CONSTRUÇÃO. Simpático, o vencedor do Prêmio Pritzker (uma espécie de Nobel da arquitetura) de 2007 defende um modelo de cidade compacta como condição de sustentabilidade e preservação do espaço urbano como local de interação. Em especial tratando das metrópoles, Rogers acredita na necessidade de redirecionar seu desenvolvimento, de modo a impedir os danos ambientais causados pela expansão desmedida e pelo uso abusivo do transporte individual.

Qual sua impressão do Rio de Janeiro? Estive aqui há cerca de 20 anos e não posso dizer que tinha uma impressão formada. Desta vez, sobrevoei a cidade de helicóptero e fiquei muito impressionado. É um lugar lindo, talvez um dos mais bonitos no mundo. Sydney, na Austrália, é outra metrópole com uma geografia parecida, debruçada no mar, a paisagem definindo o contexto de ocupação urbana. Ambas encantadoras. Quanto à arquitetura, me pareceu que há, sim, exemplos de alta qualidade, dentro de um universo bem misturado, sem muitos critérios. Depois daqui, vou ainda a Curitiba, porque sou amigo do ex-prefeito Jaime Lerner. Por sinal, essa é uma cidade brasileira que admiro, pois tem dimensões moderadas, soube conter o crescimento desenfreado. Seu projeto urbanístico é notável, principalmente em função de um transporte público eficiente e farta oferta de áreas de lazer.

Sua visita tem a ver com algum projeto no Brasil?Este país se tornou uma das grandes potências econômicas mundiais. Tudo está acontecendo ou está para acontecer aqui. Esse clima, essas possibilidades me interessam. Tenho sangue latino, família italiana, e acho que a minha cultura mediterrânea é bem próxima da brasileira. Enfim, me envolver em algum projeto aqui seria fantástico.

Você acha possível integrar elementos regionais no contexto da arquitetura global? Como um escritório baseado em Londres pode propor um projeto que vai ser parte da realidade brasileira – inclusive no que se refere ao conhecimento de matérias-primas locais? Você tem que ter a sensibilidade para vivenciar a cultura local, pesquisar materiais e apostar numa flexibilidade estética. Aqui, há fartura de marcos geográficos naturais que podem e devem influenciar um projeto. Mas, em geral, digo que meu escritório, que reúne cerca de 150 pessoas, já é um enorme celeiro de diferentes nacionalidades e culturas. Os projetos refletem esse mix, se beneficiam disso. Gosto de viajar, de conhecer, de viver o lugar em que trabalho. Se possível, morar por um tempo. E com boas referências e muita pesquisa, fica mais fácil desenvolver projetos adaptados à realidade local.

Você trabalhou como conselheiro da prefeitura de Londres em assuntos relacionados à arquitetura e urbanismo por quase dez anos. Como você analisa o crescimento urbano da capital inglesa e como ela está se preparando para os Jogos Olímpicos, que ocorrerão em 2012? Acho que, essencialmente, a cidade se beneficiou nos últimos anos de bons prefeitos, que pensam o planejamento urbano em detrimento da especulação. Além dos muitos preparativos para a Olimpíada, que incluem revitalizações de áreas públicas, zonas industriais ganharam grandes empreendimentos. Outro fator interessante é que a estrutura olímpica abrange também as partes mais pobres da cidade, não se restringindo a uma maquiagem que funcione apenas durante o evento. Os jogos estão funcionando como um catalisador, trazendo verbas e projetos, fazendo que a cidade seja repensada.

O que o Rio de Janeiro pode ganhar como legado da Olimpíada? Os Jogos duram poucos dias. Mas é essencial que eles sejam uma justificativa para definir uma nova – e melhor – qualidade de vida nos locais onde ocorrem. Por conta deles, a cidade recebe investimentos maciços e tem chance de se reinventar, corrigir erros, beneficiar a população como um todo. Para mim, o melhor exemplo que soube aproveitar essa oportunidade foi Barcelona, que praticamente renasceu com e depois do evento, revitalizando áreas pobres e decadentes. Já Los Angeles errou, investindo essencialmente na construção de estradas: hoje é sede dos maiores engarrafamentos do mundo. Nada ali foi destinado às áreas mais carentes. É essencial que esse cuidado aconteça aqui. A Olimpíada deve ser também uma oportunidade para mudar a vida das pessoas nas favelas e construir uma sociedade mais justa.

Empreendimento Barangaroo Masterpkab

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O senhor comparou a situação geográfica do Rio com a de Sydney, na Austrália, onde seu escritório assumiu um grande projeto. Fale um pouco desse empreendimento, batizado The Barangaroo Masterplan. Estou desenvolvendo um bairro com escritórios, casas e áreas de lazer, com cerca de 1 milhão de m² posicionados em frente ao mar. O interessante é que ali era uma área portuária, degradada, com idas e vindas de cargas. Movendo o porto, tornamos esse espaço mais integrado ao contexto urbano, trouxemos vida para o entorno. O mesmo aconteceu em Barcelona, que revitalizou a zona portuária transformando-a num pólo de lazer. E também em Londres, especialmente na parte próxima ao rio Tâmisa. São ótimos exemplos que devem ser seguidos.

One Hyde Park

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O senhor é autor do projeto do prédio apontado como o empreendimento residencial mais caro do mundo: One Hyde Park, em Londres, onde os apartamentos podem custar R$ 374 milhões. O que justifica cifras tão astronômicas? Acho importante destacar que meu escritório assina apenas a arquitetura do empreendimento, não o design do interior, que é onde os materiais são mais luxuosos. Em termos de arquitetura, acho um projeto interessante, com prédios inteligentes, farta iluminação natural, eficiente aproveitamento e uso de energia. São blocos simples e elegantes, só que localizados num dos endereços mais caros do planeta. Vale lembrar que, em Londres, para cada projeto de alto luxo, o empreendedor tem de dar uma contrapartida para a sociedade, exigida pelo governo: isso significa gastar 50% do valor do lançamento em moradias populares. Bastante justo, não? No caso do 1 Hyde Park, o empreendedor não me contratou para desenvolver o projeto mais popular, mas eu adoraria executá-lo.

Centro Georges Pompidou

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O senhor desenhou o Centro Georges Pompidou (1971-1977) em parceria com o arquiteto Renzo Piano. Como foi propor, há cerca de 30 anos, uma estrutura tão revolucionária para uma cidade como Paris? O Pompidou é uma estrutura transparente, que ocupou o espaço público propondo, além do prédio, uma grande piazza, feita sob medida para todos se encontrarem, confraternizarem. A impressão que me encanta, ali, é que esse ponto de encontro parece se alongar para o interior do edifício, que funciona como uma moldura que une interior e exterior. Uma característica do projeto que eu considero essencial é a flexibilidade. Para se pensar em um empreendimento que vai estar ali por muitos e muitos anos e pode mudar eventualmente de função, é necessário apostar na flexibilidade: a estrutura precisa ser facilmente moldada a novos usos.

Edifício Lloyd’s

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Foi essa a sua preocupação também na sede do Lloyd’s (1978-1986), outro de seus projetos na região central (City) de Londres? Ali me pediram uma estrutura sem modismos, que resistisse através dos tempos. Usei então muito vidro, criando paredes vivas, que refletem e se “mexem” e deixam à mostra a paisagem ao redor, sem criar um conflito. Os vãos são altos, generosos, possibilitando flexibilidade para mudar de função e forma, se necessário. É interessante acrescentar que o prédio não tem estacionamento, porque se encontra em uma área densamente povoada, com tráfego pesado e que deve ser acessível preferencialmente através de transporte público: ônibus, metrô ou bicicleta.

Em mais de cinquenta anos de trajetória profissional, como resumiria seu estilo? Sou um grande observador de cidades, gosto de viajar e pesquiso constantemente referências. Há um trabalho grande e contínuo, seja junto a governos planejando melhores soluções urbanísticas, ou no meu escritório, em empreendimentos privados espalhados pelo mundo. Com isso, fui criando dogmas que tento seguir na minha vida profissional e acho que cabem a qualquer arquiteto: todo cidadão deve poder enxergar uma árvore da janela de sua sala, sentar num banco na praça vizinha à sua casa e ir de bicicleta para o trabalho.

O senhor já declarou que as cidades “não acontecem, elas são feitas” e precisam ser planejadas com critério. Como implementar esse conceito na prática? Em primeiro lugar, sou absolutamente contra a expansão predatória – critico infinitamente, em qualquer cidade. Planejamento é essencial e para isso o governo tem de intervir sempre, ditar regras, trabalhar ao lado dos arquitetos. O Rio de Janeiro deve ficar especialmente atento aos prejuízos de uma expansão imobiliária indefinida, excessiva. Aqui há fartura de ícones geográficos que ajudam a construir uma mescla equilibrada de arquitetura e geografia. É importante também atentar que, antes de expandir, o melhor é regenerar áreas decadentes, vazias ou pobres – criando praças, estações de ônibus, pontos de encontro. Em geral, dois princípios são básicos na minha cartilha: o espaço publico é um direito do cidadão. As ruas são pontos de encontro. Cabe aos governos tornar isso viável.

Fale um pouco sobre sua visão de sustentabilidade na arquitetura e no planejamento urbano. O que torna uma cidade sustentável é, a meu ver, sua dimensão. Ela tem de ser um espaço que convide a deslocamentos a pé ou de bicicleta, ou por meio de transporte público. É importante que ao sair do trabalho a pessoa possa rapidamente chegar em casa ou numa área de lazer agradável, convidativa.

Como a sustentabilidade e tecnologia podem se aliar? Antes, a estética era o item principal quando o profissional pensava um projeto. Agora, ele precisa aliar seu traço a preocupações relevantes, como insolação do terreno, formas de captação de energia, estudar o aproveitamento de águas pluviais, além de avaliar – e evitar – o uso de materiais capazes de agredir o meio ambiente. A pesquisa de matérias-primas se tornou essencial, um compromisso importante.

Defina o conceito de uma arquitetura que considera exemplar. Tem de ser leve e transparente, respeitar um processo de construção viável e adaptado às condições locais, ter escala e ritmo, flexibilidade e adaptabilidade, buscar um senso de pertencer ao lugar, e ainda fazer a integração do publico e privado. Assinei o projeto da moradia dos meus pais em Wimblendon, nos anos 60, um dos meus primeiros trabalhos. É uma estrutura reta e integrada ao entorno, que até hoje permanece atual. Isso porque é uma casa que muda de acordo com quem vive ali, que mantém o frescor da juventude. Essa é a arquitetura na qual acredito.

E há algo que ainda sonha fazer? Um grande projeto em vista?Quem sabe trabalhar aqui no Brasil? Eu realmente adoraria.

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