Lina Bo Bardi: 9 histórias sobre a arquiteta

Histórias saborosas de quem conviveu com a arquitetura Lina Bo Bardi que completaria 100 anos em dezembro

Por Silvia Gomez Atualizado em 19 jan 2017, 15h52 - Publicado em 17 nov 2014, 17h59
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Quando chegou de navio ao Rio de Janeiro com o marido, Pietro Maria Bardi (1900-1999), em 1946, a arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992), nascida em Roma, deslumbrou-se com a paisagem e a visão do edifício do então Ministério da Educação e Saúde. “Primeira mensagem de paz após o dilúvio da Segunda Guerra Mundial [1939-1945]. Eu me senti num país inimaginável, onde tudo era possível”, escreveu. Aqui, naturalizou-se brasileira em 1951 e construiu, em São Paulo, um museu revolucionário, o Museu de Arte de São Paulo (Masp), uma Casa de Vidro para morar e uma obra referencial de lazer, o Sesc Pompeia, entre muitos projetos e exposições, também pelo Brasil. Enumerar aqui o que deixou é quase impossível, pois assinou de revistas a prédios. Melhor, então, ouvir o que nos contam sobre ela: que arquitetura é, sobretudo, o exercício de pensar um mundo com mais igualdade.

 

O estagiário de cabelo comprido

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“Foi em 1977, bem no dia do meu aniversário, 29 de agosto. Cheguei ao Sesc Pompeia para ser estagiário da Lina, e lá estava aquela mulher de preto dirigindo mais de 300 operários. Fui me apresentar. Ela disse simplesmente: ‘Ok, vamos começar amanhã’. Meu cabelo era enorme. Tempos depois, em sua casa, comentou que havia gostado de mim porque eu enfrentava a obra mesmo com aquele cabelão. Como não havia plantas dos galpões do Pompeia, eu e o André Vainer, que veio logo depois, medimos tudo manualmente. Passamos nove anos ali, indo todo dia – foi uma vida, uma escola. Até hoje, quando entro e vejo aquela cidadela funcionando, fico admirado com sua vitalidade. Crianças correndo, gente tomando sol ou lendo jornal… No Pompeia, Lina exercitou com a maior liberdade tudo em que acreditava. Tinha extrema objetividade na elaboração: este projeto é para tais pessoas, para tais atividades. Pensava antes nos fins. Todos colocamos muita energia naquilo. Foi uma forma inédita de trabalhar, cheia de mudanças no processo, hoje algo impossível com a burocracia inviabilizando qualquer correção de rota. Sua ideia de que a arquitetura desempenha função social, de que é para servir a comunidade – e não satisfazer o ego de quem desenha –, precisa entrar na pauta atual.” Marcelo Ferraz é arquiteto e colaborou com Lina Bo Bardi até 1992. Dirige o Escritório Brasil Arquitetura ao lado de Francisco Fanucci.

 

O estudante pelos telhados

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“Aos 14 anos, em visita a Salvador, fiquei fascinado pelo Museu de Arte Moderna da Bahia [MAM-BA], localizado no Solar do Unhão. Logo depois, acompanhei, espantado, a inauguração do Masp, querendo entender quem tinha feito aquilo. Um homem? Uma mulher? Já na faculdade, o Marcelo Ferraz, meu colega, me chamou para um estágio no Sesc Pompeia, em 1977. Estava nas nuvens: ia trabalhar numa obra de verdade. Éramos dois moleques brincando numa fábrica velha, dando risada e subindo nos telhados para aprender a fazer o levantamento cadastral da construção. Mas, graças a isso, Lina nos adotou ao mesmo tempo que exigia uma performance de atenção. Participamos da concepção da Igreja Espírito Santo do Cerrado, em Uberlândia, MG. Lembro quando fomos para lá – os três bebendo uma e desenhando o projeto executivo no refeitório do convento franciscano que nos hospedou. Lina acordava às cinco da manhã para fazer chá para o Pietro, seu marido. Comentava ser o horário preferido dela para trabalhar. Lina se colocava o tempo todo, não para criar conflitos, mas pela busca da clareza de suas ideias. O que ficou dela para mim? Uma séria procura da simplicidade: espaços fáceis de entender e usar, nos quais as pessoas se sintam participantes.” André Cainer é arquiteto e também colaborou com Lina Bo Bardi até o final da vida dela, em 1992.

 

O soldado da “Trops do Sim”

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“Lina era mais delicada do que aparentava na primeira impressão. Quando percebeu que eu e minha equipe também queríamos fazer da programação do Sesc Pompeia algo criativo e experimental, nos tornamos amigos. Ela nos convidava para almoços na Casa de Vidro, festas deliciosas em que se comia muito bem e se bebia melhor ainda. Especialidades: espaguete à carbonara e caju-amigo. Nessa época, o Pompeia era a ‘Fábrica do Sim’, pois dissemos ‘sim’ para muita coisa – espetáculos, exposições. Em suas palavras, aquele era um pequeno exército. Na inauguração, em 1982, estava lá o presidente militar João Baptista de Oliveira Figueiredo. Quando o apresentaram à Lina, ela perguntou: ‘Senhor presidente, por que não convoca os arquitetos do país para um projeto de moradia popular?’ Pego de surpresa, ele respondeu: ‘É uma ideia’. E ela: ‘Não é uma ideia, é um dever!’ Tiraram-no de lá na hora!” Fábio Malavoglia foi o primeiro coordenador da programação cultural do Sesc Pompeia, entre 1981 e 1984. Hoje, apresenta o RadioMetRópolis, na Cultura FM.

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“Ela fez programação visual e ilustrações para revistas e cartazes. O que amarra esse trabalho é seu desenho, para o qual tinha um talento incrível. Os de arquitetura trazem sempre pessoas, um cachorrinho – são cenas comentadas, narrativas.” João Bandeira é crítico e curador de arte. Assina, ao lado de Ana Cândida de Avelar, a exposição Lina Gráfica, em cartaz no Sec Pompeia.

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“Na mostra sobre o Pinóquio, Lina me chamou: ‘invente alguma coisa para o espaço’. Propus uma grande baleia. Meu trabalho em parques teve origem ali, Na Liberdade que ela pregava. Depois, na mostra Entreato para crianças, me pediu outro bicho e sugeriu: ‘Quem sabe uma cobra brava?’ assim, nasceu a sucuri que nos engolia.” Marcia Benevento, arquiteta e cenógrafa, trabalhou no Sesc Pompeia entre 1982 e 1987.

 

O cenógrafo do Polochon

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“Nunca esquecerei minha impressão quando a conheci. Fui contratado pelo Sesc Pompeia para cuidar das oficinas de criatividade, e nos apresentaram. Ela montou seu escritório ali, na própria fábrica, ao lado dos pedreiros, dos assistentes… Era uma pessoa forte, despachada, brincalhona. Logo ficamos amigos – minha mãe era italiana, e a gente usava expressões dessa língua. Eu poderia trabalhar com ela a vida inteira. Seria uma delícia! Lina conhecia profundamente as culturas europeia e brasileira. Fizemos várias exposições juntos e, também, a cenografia da peça Ubu, do Teatro do Ornitorrinco, em 1985, para a qual ela concebeu um divertido porco surrealista, o Polochon. Lina inventava o assunto, ia para casa e voltava dois ou três dias depois com um desenho maravilhoso – uma prancha aquarelada especificando cada detalhe para transformarmos em realidade.” Miguel Paladino, cenógrafo, atuou como assistente de Lina entre 1981 e 1990, em diversos projetos de arte.

 

O amigo do triângulo mineiro

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“Meu convívio de trabalho e amizade com a dona Lina durou 20 anos. Sua arquitetura jamais caiu na armadilha do esteticismo formal – sempre foi endereçada ao homem. Ela trazia consigo a experiência da guerra, o que a levava a sentir grande compaixão pelos seres humanos e pelas necessidades de sobrevivência. Até a maturidade, foi uma mulher elegantíssima. Sua tez branca contrastava com a cabeleira negra. Sempre dizia não ser mais italiana: o Brasil fora sua escolha de vida e cidadania. Na ocasião das obras da Igreja Espírito Santo do Cerrado [1976-1982], em Uberlândia, MG, nos encontrávamos duas vezes por ano na cidade para os mutirões de construção. A casa acoplada à igreja é um grande exemplo deixado por ela, projeto arquetípico de habitação popular no Brasil – simples e sofisticado. Nossos jovens arquitetos deveriam estudá-la.” Edmar José de Almeida, artista, produziu com Lina Bo Bardi, em 1975, a premiada exposição Repassos – Edmar e as Tecedeiras do Triângulo Mineiro, no Masp.

“Eu a conheci no meio da estrada para Uberlândia, nos anos 70. Ela viajava para o projeto da igreja Espírito Santo do Cerrado e perguntou: ‘por que não vem também?’ então me emprestou um pijama de seda, e percebi que aquele exterior envolvia uma pessoa muito delicada, sabe? Provocadora, ela afirmava ser arquiteto, e não aquiteta.” Maria Cecília Cerroti, arquiteta e cenógrafa também conhecida como Loira, tornou-se amiga de Lina Bo Bardi.

 

A moça da entrevista de duas horas

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“Meu coração batia forte quando apertei a campainha da Casa de Vidro na manhã de 27 de setembro de 1991, dia de entrevistar Lina Bo Bardi para meu livro. Foi bonito descobri-la naquela sala. Lembro-me de como estava vestida, com um lenço turquesa no pescoço. Antes de começar, pôs-se a falar do Japão e de sua admiração pela cultura do país. Depois, ao longo de duas horas, ela me contou com entusiasmo fatos de sua obra e vida. Encontrei ali uma criatura excepcional e luminosa. Alguns edifícios de Lina são referência para mim, como o Masp. Durante a faculdade, em Salvador, também me vi atraída por uma casa no bairro de Chame-Chame sem saber que era de sua autoria – hoje, infelizmente demolida por causa da especulação imobiliária. Tenho, ainda, especial interesse pelas escadas da arquiteta. Elas me comovem. Entre as mais belas elegeria a do Solar do Unhão.”  Olivia de Oliveira é arquiteta, pesquisadora e autora do livro Lina Bo Bardi – Obra Construída (GG Brasil).

 

Lina em exposição: algumas das mostras em cartaz

 

  • Maneiras de expor: Arquitetura expositiva de Lina Bo Bardi. Até 9/11, no Museu da Casa Brasileira (MCB), em São Paulo. Curadoria: Giancarlo Latorraca. www.mcb.org.br.
  • O Mobiliário de Lina Bo Bardi: Tempos pioneiros. De 18/10 a 6/12, na Casa de Vidro, no Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, em São Paulo. Curadoria: Sérgio Campos. www.institutobardi.com.br.
  • A Arquitetura Política de Lina Bo Bardi: até 14/12, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Curadoria: André Vainer e Marcelo Ferraz. www.sescsp.org.br.
  • Lina Gráfica: até 14/12, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Curadoria: João Bandeira e Ana Cândida de Avelar. www.sescsp.org.br.

 

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