Entrevista com o designer holandês criador do What Design Can Do

Com o objetivo de discutir o papel transformador do design, o WDCD conta com palestras de profissionais da gastronomia, das artes, da ciência e, claro, do design, vindos de vários pontos do planeta.

Por Helena Tarozzo Atualizado em 14 dez 2016, 11h56 - Publicado em 22 out 2015, 16h34

laken Criado pelo holandês Richard van der Laken, o What Design Can Do! (WDCD) tem sua primeira edição fora da Holanda nos dias 7 e 8 de dezembro, na capital paulista, na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap). Com o objetivo de discutir o papel transformador do design, o WDCD conta com palestras de profissionais da gastronomia, das artes, da ciência e, claro, do design, vindos de vários pontos do planeta. Confira abaixo a entrevista de Richard a CASA CLAUDIA, além da programação do ciclo de palestras.

Por que fazer uma edição do What Design Can Do! no Brasil?

Comecei o WDCD há 5 anos em Amsterdã. Resumindo, trata-se de pensarmos sobre o impacto do design. Não é um seminário apenas sobre estética ou beleza, mas sim sobre como o design pode contribuir efetivamente para a sociedade. Nos últimos anos, tivemos muitos palestrantes brasileiros em Amsterdã e percebi que eles são muito claros em dizer que o design não é apenas algo com uma cara bonita, mas que também pode ter impacto social. Depois de várias visitas ao Brasil, percebi que o país tem uma comunidade criativa muito forte, contudo, não há infraestrutura e apoio. Há muito a ser feito ainda para os próprios designers se organizarem e criarem infraestrutura. Além disso, ainda existem problemas sociais que são desafios por aqui: pobreza, urbanização e meio ambiente. Em São Paulo, esses problemas são evidentes – mobilidade, problemas hídricos, entre outros. Com o WDCD, queremos mostrar que é possível gerir tais problemas sociais com iniciativas de design. Os designers não apenas sentam e discutem ideias, mas levam isso para a ação, criando coisas reais e tangíveis – e essa é a grande diferença e o poder do design.

Entre os palestrantes estão designers gráficos, arquitetos, chefs de cozinha, cientistas. São pessoas de áreas diferentes falando em um mesmo lugar. Como tudo isso se mescla no WDCD? 

No WDCD, não pensamos de fato numa disciplina, mas sim numa atitude. Seja você um arquiteto ou designer gráfico ou designer de comidas, ou um empreendedor criativo, sempre existirão desafios. Costumo pensar que, onde empresas e órgãos governamentais enxergam problemas, os designers costumam ver novas oportunidades e desafios. E para isso não importa se você é de uma área ou de outra. O importante é ter atitude, querer fazer e mudar as coisas, romper com o que existe, jogar fora coisas velhas e tornar a vida melhor.

O que o design pode fazer para um morar melhor?

Tudo tem a ver com o valor que você agrega às coisas que faz. Um ótimo exemplo são os irmãos Campana. Eles realmente usam a herança brasileira e isso é algo que você sente quando vê uma peça deles, pois tem uma certa profundidade.

Mas é um tipo de produto ainda muito caro…

Sim. E isso é um problema. Mas a maneira de pensar deles é interessante. Gosto do exemplo da sueca Ikea, que é inovadora, tem designers muito bons, preços baratos, um selo de um design democrático. Há muitas críticas à Ikea, é verdade, no entanto é uma maneira fantástica de mostrar o que o design pode fazer, com um ‘design thinking’ por trás. Não só para fazer coisas bonitas, mas também para otimizar a produção e a funcionalidade de uma maneira muito inteligente.

Você citou os irmãos Campana e seu trabalho no resgate das nossas origens. Aqui ainda temos um trabalho muito forte de artesãos. Na sua opinião, qual é a importância do artesanato no universo do design?

A valorização do artesanal é uma tendência global. Na Holanda nós vemos alguns designers se voltando para a tradição do país, para antigas raízes. Eles vão a pequenas vilas no campo e resgatam tradições que praticamente se perderam com a alta industrialização dos anos 1990. Mas é um conhecimento que ainda continua lá e nos museus. Temos muitos designers e estudantes fazendo isso. Mas há também designers que fazem isso em outros lugares ao redor do mundo. E isso é importante. Devido à globalização, perdemos a conexão com nossa própria cultura e herança e os designers podem resgatar esses valores. Porque, mais uma vez, eles fazem isso visível e tangível.

Marcelo Rosenbaum e Alex Atala são palestrantes e também possuem esse resgate…

Sim. Eles foram nossos palestrantes em Amsterdã e Rosenbaum também é um dos nossos embaixadores. De fato, eles são muito conectados com essa herança cultural brasileira. Usam ingredientes e matérias-primas amazônicas que muitas pessoas nem imaginam que existam. O Alex faz isso com comidas e o Marcelo com produtos. Mas ambos estão conectados com povos indígenas e com ingredientes que os locais entregam para eles, o que dá força a essas populações e movimenta sua produção, gerando renda e uma melhor qualidade de vida.

Falando especificamente de design de comida… Como isso funciona?

Normalmente, não olhamos tanto para ela… Às vezes, você dá uma olhada e pensa, “ok, parece bom”. Comida e gastronomia são coisas extremamente desenhadas e nem notamos isso. Se você come uma barra de chocolate, ela tem um design. Se você bebe leite, a embalagem dele tem design. Veja o exemplo de um pretzel ou de um donut: você sabe por que os donuts têm um buraco no meio? Até onde eu sei, é um tipo de pão judaico, antigamente carregado em varas até o mercado. Essa é a mesma história dos pretzels. Já o tablete de manteiga possui o tamanho ideal para caber em caixas que serão transportadas por diferentes regiões. Comida tem muito a ver com logística e você precisa de soluções de design para a distribuição. Além disso, hoje está muito em voga a relação que a comida tem com a cultura de um país, com a felicidade e as emoções de um povo – tese do Atala. Ele diz que a comida é uma rede social por excelência, que conecta as pessoas. Eu acredito nisso.

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Eu imagino que serão ditas coisas inspiradoras e interessantes durante as conferências. Mas como levar a teoria para a prática?

O que discutimos e mostramos é o que os designers estão fazendo. O WDCD trata de pessoas que fazem isso se tornar realidade. Mostramos seus exemplos prontos. Não se trata apenas de ideias, mas, sim, de vida real. Porém, nós também convidamos designers que trabalham e pensam aquilo que chamamos de “design especulativo”, refletem sobre o futuro e sobre o “e se…”. Para inovar, é preciso ir de encontro ao obscuro e desconhecido. Uma de nossas palestrantes, a cientista Daisy Ginsberg, por exemplo, está focada em como conectar biologia e design. Num de seus estudos, ela propõe o uso de cápsulas capazes de detectar doenças e distúrbios do corpo. Você as engole e descobre o que tem depois de ir ao banheiro. Se suas fezes ficarem azuis, você tem tal coisa, se ficaram roxas, o diagnóstico é outro, e assim com outras cores também. Isso ainda não é possível, mas é algo que pode ser viável no futuro. Todos os elementos estão lá e ela diz que, com investimento, poderemos desenvolver essa tecnologia. Isso mostra como o design pode estar relacionado à saúde. No WDCD, vamos falar de presente e de futuro.

E o que você percebe das pessoas que participaram das outras edições na Holanda. Quais as respostas que vocês recebem do público?

Na Holanda, as pessoas voltaram para casa totalmente inspiradas e cheias de ideias e de energia. Paralelamente às conferencias, nós também organizamos workshops e aulas para que todos pudessem se encontrar e trocar experiências. Dessa forma, visitantes e organizações convidadas acabam fazendo um intercâmbio de experiências. O WDCD é um momento de networking, de encontro. Nos últimos cinco anos, muitas iniciativas foram criadas a partir do WDCD. Agora queremos lançar um desafio internacional, que se refere à questão dos refugiados. Com o patrocínio da Ikea Foundation e da ONU, vamos convocar designers do mundo todo para refletir sobre o tema a partir de ideias.

O que é revolucionário para você hoje?

Uau, deixe-me pensar… Vejo que os designers têm cada vez mais iniciativa, não esperam mais por clientes ou pelo governo para criar. Eles simplesmente vão lá e fazem as coisas. É um novo indicador e ele ganha força também na sociedade em geral. Parar de seguir briefings é muito legal e independente. Isso pode ser bastante revolucionário.

programação

 

Serviço:

WHAT DESIGN CAN DO

Quando: 7 e 8 de dezembro

Onde: Teatro Faap – R. Alagoas, 903 – Higienópolis, São Paulo 

Ingressos e informações: http://www.whatdesigncando.com/event/

 

 

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