Com os olhos no futuro: uma entrevista com o arquiteto Bjarke Ingels

O dinamarquês, que dirige o escritório de arquitetura que leva seu nome (BIG), defende o modo vida sustentável no livro - Yes is More. Leia a entrevista e conheça abaixo alguns dos projetos que levam a marca do escritório premiado.

Por Por Denise Gustavsen Atualizado em 20 dez 2016, 18h24 - Publicado em 28 abr 2011, 16h33

O arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels quer transformar o mundo. À frente do escritório que leva seu nome, o BIG, ele coleciona prêmios com projetos de viés ecológico e espírito contemporâneo em vários pontos do planeta. Acabou de vencer a competição para criar um complexo cultural e religioso de 27 mil m², na Albânia. Antes, arrebatou olhares ao pensar um portal de entrada em Estocolmo, capital da Suécia, a partir de um vale marcado por florestas, túneis e colinas. Mas o elemento inusitado do plano é uma esfera de grandes proporções e superfície espelhada que flutuará acima das estradas. Dotada de painéis fotovoltaicos, a peça absorverá a luz do sol e produzirá energia suficiente para abastecer dezenas de residências da região. De quebra, proporcionará uma visão de 180 graus dos arredores verdes aos motoristas. Defensor implacável do modo de vida sustentável, Ingels assina o livro ‘Yes is More’, da Taschen, cuja edição em português será lançada em junho.

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Como deixar o conceito ‘menos é mais’ atraente? É geral a percepção de que sustentabilidade implica em privações. Mas ideias sustentáveis, ao contrário, podem incrementar a qualidade de vida. Projetadas com sistemas ecológicos eficientes também do ponto de vista econômico, construções e cidades engajadas podem se tornar interessantes ao não forçar as pessoas a alterar seu estilo de vida na busca pela consciência ecológica. Trata-se da abordagem da questão não como um dilema moral, mas como um desafio de design. Com nosso trabalho, estamos tentando mostrar que a vida sustentável pode ser mais divertida que a normal.

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De que forma conectar natureza e cidade? Criamos o projeto de uma usina de reciclagem de lixo, em Copenhagen, que acolhe uma pista para os moradores esquiarem em todas as estações do ano. É economicamente e ambientalmente rentável, porque transforma resíduos em calor e energia, e socialmente rentável, porque cria uma atividade social antes impossível na topografia plana da cidade. Será a primeira montanha de esqui do lugar. Agora os moradores da capital não precisarão mais viajar seis horas para praticar o esporte. A ideia inicial era desenhar um centro de visitantes junto da usina para atrair estudantes, mas concluímos que esta proposta não chamaria a atenção dos alunos espontaneamente. A criação da pista também atendeu outra necessidade do projeto. Além de proporcionar lazer, a face externa, pontuada por plantas, traz beleza e ajuda a camuflar a instalação onde funciona a usina. Outro cuidado foi pensar detalhes lúdicos: graças a um pistão, a fumaça, por exemplo, sairá pela chaminé na forma de vistosos anéis gasosos. A união de todos esses elementos faz desse projeto, que ficará pronto em 2016, símbolo máximo da sustentabilidade hedonista.

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Dá para transformar uma cidade caótica em um lugar sustentável?

Para isso, é preciso investir em um planejamento urbano moderno. Em Copenhagen, por exemplo, 37% dos moradores andam de bicicleta, o que reduz os engarrafamentos a um nível próximo de zero. Aqui, a alegria de andar de bicicleta substitui a aflição de ficar preso no trânsito ou em busca de uma vaga para estacionar o carro. A cidade também se favorece do porto bem cuidado. As águas são tão limpas, que é possível nadar ali. Então desenvolvemos um plano, batizado de Harbour Bath, que se aproveita desse cenário para prolongar a vida pública até o mar. São iniciativas como essa que ajudam a melhorar a qualidade de vida em cidades industrializadas.

De onde vem a inspiração para criar projetos tão originais como os assinados pelo BIG?

Acreditamos na ideia de incorporar influências, demandas e interesses dos mais diferentes grupos da sociedade para criar construções permeadas pela diversidade do mundo e não apenas sinônimo do nosso gosto pessoal.

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