No Afeganistão, grafiteiras apagam sinais da guerra com tinta e spray

“As mulheres e as vítimas da guerra são como peixes mortos em um rio, flutuando sem rumo enquanto o resto da sociedade flui” – Shamsia Hassani.

Por Por Victor Sousa, do site Catraca Livre Atualizado em 20 dez 2016, 22h27 - Publicado em 16 set 2013, 17h15

Muros e imóveis destruídos por bombas ganham cores, desenhos e frases. A opressão contra a mulher é rebatida no deslizar do rolo de tinta e no encontro do spray com a parede. No Afeganistão, país marcado por conflitos, intervenção, guerra e extremismo religioso, duas mulheres utilizam o graffiti e a arte como ferramenta de luta e liberdade.

Shamsia Hassani e Melina Suliman são as primeiras grafiteiras do país e, dentro da arte, encontram maneiras e estilos diferentes para dar voz à anseios calados e oprimidos pela guerra e conservadorismo.

 

Malina Suliman

Ela é pintora, professora, escultora grafiteira e estudou Arte Realista no Paquistão. Vive em uma das cidades mais perigosas do Afeganistão, Kandahar. Lá fundou a KFAA ( Kandahar Fine Arts Association) com o objetivo de criar uma cena de arte em uma cidade regida por leis extremamente tradicionais e conservadoras. Mesmo assim conseguiu realizar o primeiro workshop de graffiti e as primeiras exposições de sua cidade.

Seu próximo objetivo é levar a experiência para outras cidades do Afeganistão e espalhar o graffiti pelo país. Ela acredita que outras gerações, que também tem seus anseios calados, podem ter uma plataforma de expressão na arte urbana.

Ela define o seu trabalho como resposta da voz de seu próprio coração, sempre à busca de liberdade criativa. Ela costumava sair escondida durante a madrugada para grafitar mensagens políticas pelas ruas de sua cidade. Já sofreu ameaças do Taliban e seu pai foi agredido na rua. A artista teve que se refugir na Índia por meses.

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Malina Suliman ainda grafita nas ruas do Afeganistão.

Shamsia Hassani

Com o lema, “liberdade não é remover a burca, é ter paz”, a artista de 24 anos quer mudar a imagem do país. Se o Afeganistão é famoso pela guerra e bombas, por quê não pode ser conhecido pela arte?, questiona.

A artista nasceu no Irã, vive no Afeganistão e tem formação em Artes Plásticas na Universidade de Cabul. Ela é artista digital, professora e a primeira grafiteira afegã.

No graffiti, seu trabalho é conhecido por personagens femininas vestindo burcas em uma postura forte e vibrante. Normalmente, estão acompanhadas de balões vazios, que simbolizam o silêncio imposto às mulheres.

Ultimamente produz painéis em locais fechados ou autorizados, pois grupos extremistas já jogaram pedras e ácido em mulheres nas ruas de Cabul. Mas o medo da repressão não a impede de sonhar. Na série Dream of Graffiti, ela desenha sobre fotografias de diferentes locais do Afeganistão, onde gostaria de grafitar.

O site Mistura Urbana entrevistou as grafiteiras. Confira.

Matéria publicada originalmente no site do Catraca Livre.

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