Lições de Shigeru Ban

Devo à inspiradora temporada de sete meses com esse mestre, vencedor do Prêmio Pritzker 2014, a compreensão do trabalho dos arquitetos e da efemeridade dos espaços

Por Por Mirian Vaccari, arquiteta | Fotos: Arquivo pessoal Atualizado em 20 dez 2016, 21h25 - Publicado em 16 jul 2014, 21h56

Em outubro de 2012, fui selecionada para atuar no estúdio do arquiteto na Universidade de Artes e Design de Kyoto e em sua ONG, a Voluntary Architects’Network (VAN). Eram apenas duas vagas de pesquisador internacional, e ser escolhida pelo próprio ganhador do Pritzker já foi grande vitória para mim. Não pensei duas vezes: seis meses depois, larguei minha vida e meu escritório em São Paulo e viajei para o Japão. “Hi, I am Shigeru”, foi como ele se apresentou, num misto de humildade e respeito típico dos japoneses. Achei engraçada a situação – aquela figura, que é um ícone, materializar-se em pessoa comum.

Rígido mas também brincalhão, o arquiteto conseguiu incentivar inúmeros estudantes de graduação a trabalhar na construção de prédios, como a do estúdio de papelão, em que desenvolvi parte de minha pesquisa sobre o uso do material em edificações para áreas de desastre. Também pus a mão na massa e mergulhei fundo no universo prático, diferentemente da teoria que experimentei na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP) e no mestrado na Universidade de Oxford.

Ao final da experiência, fui convidada a trabalhar com ele em seu escritório, em Tóquio, no projeto de uma escola de papelão para vítimas de um terremoto em Sichuan, na China. Parti para lá alguns meses depois e vivenciei a diferença entre culturas. Por tudo isso, deu orgulho ver o mestre ser condecorado com a honraria máxima da arquitetura e por ter meu nome na placa de inauguração da escola. “Às vezes, as pessoas ficam tão felizes nos meus abrigos temporários que simplesmente não querem se mudar”, Shigeru me confidenciou. A frase, estimulante como a prática dele, conduziu-me a um grupo de estudos de desastres na USP, quando retornei. Também montei uma loja para uma ONG africana – tudo sem abandonar meus clientes particulares.

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