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Arquitetura de grife: prédios residenciais assinados mudam a cidade

Morar em um edifício projetado por Isay Weinfeld, Ruy Ohtake ou Daniel Libeskind é um sonho possível em São Paulo.

“Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto”. Os versos de Caetano Veloso traduzem uma São Paulo de prédios cinzas – alguns neoclássicos outros sem estilo definido –, prédios comerciais envidraçados e pesados viadutos. Mas a leva de arquitetos que produzem obras de arte para morar pincela o horizonte da cidade com projetos personalizados e exclusivos. Dois sucessos recentes, o Vitra de Daniel Libeskind e o 360º do paulistano Isay Weinfeld despertaram as incorporadoras.

Existe, sim, demanda no Brasil para edifícios residenciais autorais. Há um público que gosta e admira arquitetura de alto nível. De olho nesse nicho, construtoras como a JHSF prometem trazer Norman Foster, Richard Rogers e Renzo Piano – todos ganhadores do prêmio Pritzker, o Nobel da Arquitetura – para criar projetos exclusivos por aqui. “Temos muito interesse nesses nomes, principalmente para projetos no segmento de altíssima renda”, confirma Luciana Amaral, da JHFS. Com a crise nos EUA e na Europa, o mundo volta os olhos para cá. “Temos necessidade de bons projetos e um grande mercado consumidor”, diz Luciana.

Mercado de luxo

O mercado de luxo no País é rentável. A loja da Diesel que mais vende por m² está em São Paulo. Mas, no mercado imobiliário, até 2008, obras diferenciadas eram vistas apenas em projetos de centros culturais, sedes administrativas e museus, como a sede do Museu do Amanhã, no Rio, projetado pelo espanhol Santiago Calatrava. Um ou outro exemplo, também de grife, pode ser visto em moradias sociais. Em São Paulo, arquitetos como Ruy Ohtake e Hector Vigliecca construíram excelentes projetos residenciais para baixíssima renda na favela de Heliópolis. Recentemente o escritório franco-brasileiro Tryptique ganhou um concurso da CDHU e vai construir prédios voltados para habitação popular. Agora, surge um novo olhar para classe A. Em termos de negócio, um prédio assinado por Ruy Ohtake pode valer 30% mais que um prédio que tenha um projeto sem assinatura. Essa valorização se justifica. Ohtake jamais repete um projeto. Cada detalhe do prédio é especificado para ser único. E esse processo todo leva tempo. “Há três anos, ter um cliente que desse tempo para projetar era quase um sonho de consumo”, revela Grazzieli Gomes, do escritório Aflalo e Gasperini, outra grife paulistana que após um período voltado para o mercado corporativo volta a projetar edifícios residenciais.

Janelas, luz, espaço

Mas o que o comprador irá notar em um prédio projetado por Weinfeld ou pelos arquitetos da Tryptique? Há diferença entra comprar uma calça de marca ou uma no hipermercado? Sim. As duas têm o mesmo uso, mas diferem em tudo. E o que as difere, em arquitetura, chama-se projeto. “Tudo começa pelo interior. Mais luz, mais janela, mais espaço. Um interior bem projetado reflete na fachada do edifício”, afirma Oliver Raffaeli, do Tryptique. “Design é tudo. A Cartier não vende pedras. Vende design”, completa o francês radicado no Brasil. Para Zarvos, boa arquitetura é atemporal e basta entrar no espaço para reconhecer a diferença. Ele cita como exemplos o Edifício Louveira, projetado por Villanova Artigas e o condômino Bretagne, projetado por João Artacho Jurado. Muitos projetos feitos em escala industrial pecam em coisas básicas como janelas pequenas, banheiros sem ventilação direta e quartos na fachada norte. Se o apartamento é projetado sem o menor cuidado com questões como ventilação e insolação, seria pedir demais que ele ainda falasse com a cidade e trouxesse um projeto sustentável, ousado e bonito. O arquiteto e professor da FAU-USP, Paulo Bruna, esclarece que desenho exclusivo não é tudo – algo pode ser exclusivo, caro e ruim. “E, infelizmente, se existem projetos ruim é porque existe quem os compre”, diz Bruna. Uma questão de cultura que promete ser modificada.

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