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A nova sede do Museu de Arte Contemporânea da USP

O processo confere vitalidade inédita ao antigo prédio assinado por Oscar Niemeyer a poucos metros do Parque Ibirapuera, na capital paulista

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“O cubo branco estava lá, bastou reencontrá-lo”, revela o arquiteto Marcos Costa, do escritório Borelli & Merigo, sobre o trabalho de transformar o pavilhão na sede principal do Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Ele se refere ao conceito arquitetônico internacional que, atualmente, rege a idealização de espaços expositivos de museus e galerias. Apesar de servir bem à sua nova função graças à flexibilidade da planta, o prédio assinado por Oscar Niemeyer não foi pensado para receber obras de arte, mas para sediar a Secretaria de Agricultura. A construção, inaugurada em 1954, pertence ao complexo do Parque Ibirapuera, encomendado a Oscar na época da comemoração do quarto centenário da cidade por um conselho que contava com o empresário e entusiasta das artes Francisco Matarazzo Sobrinho. O edifício de oito andares acabou abrigando o Departamento Estadual de Trânsito (Detran) e seguiu marcado como um símbolo da problemática burocracia brasileira até a data da desocupação, em 2009.

“O primeiro dia após a retirada das divisórias que retalhavam a planta livre foi impressionante. Enxergamos como o lugar era no passado: um pavilhão com 130 m de comprimento, vãos de até 16 m e colunas que criam uma espécie de ritmo no vazio”, relembra Marcos. Foi preciso cuidado para modificar o edifício desenhado há mais de cinco décadas – portanto desgastado pelo tempo. Além do restauro de estruturas danificadas, a reforma cuidou da volta dos brises da fachada original, da construção de dois prédios para a reserva e a parte técnica e da transformação do anexo – antes usado como estacionamento – numa sala de exposição com pé-direito de 4 m. Só essa área expositiva de 4 mil m² já supera o espaço utilizado pelo museu desde 1992 no campus da Cidade Universitária.

 

 

Início de um legado

Após anos dedicados à cena artística paulista, realizando feitos como a organização da primeira edição da Bienal Internacional de Arte e a criação do Museu de Arte Moderna, o casal Francisco Matarazzo Sobrinho (1908-1977) e Yolanda Penteado (1903-1983) doou seu acervo à Universidade de São Paulo (USP), em 1963, com a condição de que fosse erguida uma sede para a nova instituição. Nascia assim o Museu de Arte Contemporânea da USP, e os esforços para construir uma casa para o acervo (que, na época, somava 1 236 itens) se tornaram uma constante entre seus diretores. Nos últimos 50 anos, organizaram-se concursos de arquitetura nacionais e internacionais, e nomes como Rino Levi (1901-1965) e Paulo Mendes da Rocha se colocaram a desenhar projetos para o MAC USP. No entanto, enclaves políticos impossibilitaram a realização das propostas e o museu seguiu funcionando provisoriamente no terceiro andar do Pavilhão da Bienal (onde permanecerá até completar-se a ocupação da nova sede) – e na pequena área no campus da Cidade Universitária, inaugurada em 1992 (a ser mantida). A solução apresentada pela Secretaria da Cultura oito anos atrás de usar a obra de Niemeyer é vista por alguns como uma conquista e por outros com reprovação, já que não se fez um novo prédio, como o casal desejava. “Acho que o próprio Oscar não estava muito interessado na reforma da antiga criação dele”, brinca o arquiteto Marcos de Oliveira Costa. Isso porque Oscar foi o primeiro convidado a dirigir o restauro, mas teve sua ideia recusada por ela não respeitar as leis de tombamento da construção, que se dá nos níveis municipal, estadual e federal.

Assim, ainda em vida, Oscar Niemeyer passou pela delicada situação de não poder alterar a própria obra, uma vez que ela tinha se tornado patrimônio histórico. Polêmicas à parte, a sede parece ser um presente para a vida cultural da capital paulista. Sua nova fase difere da abertura oficial, ocorrida no início de 2012, num gigante prédio vazio com esculturas de grande porte apenas em parte do piso térreo. “Naquele momento, interessava estrategicamente à USP ‘colocar o pé’ ali, mas a reforma não estava terminada. Optamos por expor esculturas de bronze e pedra, mais resistentes, porque não sabíamos o que poderia acontecer. Não existia segurança suficiente para peças frágeis”, revela o diretor e professor Tadeu Chiarelli. “É uma honra inaugurar a sede em minha gestão, mas também delicado, pois estamos mudando para um edifício que é por si só uma obra de arte. A pressão vem de todos os lados”, afirma. A ocupação paulatina continua e pretende alcançar os sete andares expositivos até o final do ano para mostrar cerca de metade do acervo. Atualmente, o sétimo piso exibe centenas de obras modernistas e contemporâneas emblemáticas. Quadros de Di Cavalcanti, o autorretrato de Amedeo Modigliani e as telas A Boba, de Anita Malfatti, e A Negra, de Tarsila do Amaral, coexistem com criações mais atuais, como as fotografias da inglesa Cindy Sherman. No anexo, duas exposições criadas especialmente para a inauguração enfocam a memória. O fotógrafo paulista Mauro Restife registrou as mudanças no complexo ao longo dos três anos de reforma, e sua série de 12 fotografas nomeada Obra revela a construção ora como monumento, ora como ruína. O profissional, aliás, voltou seu olhar mais uma vez ao local e registrou seu novo momento especialmente para esta reportagem de A&C. Ao lado da série de Mauro, a instalação Sala de Estar, do artista Carlito Carvalhosa, dispõe antigos postes de madeira na horizontal e obliquamente, interferindo no conjunto harmonioso de pilotis. “Sala de Espera traz de volta a este espaço um novo pulsar e, dessa maneira, recupera o melhor de Niemeyer”, conclui Tadeu Chiarelli, em seu texto sobre a mostra.

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