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A emoção de deixar um apartamento querido – e a de voltar a habitá-lo

Sob cada teto que habitamos, vivemos acontecimentos marcantes em todas as fases da vida

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O que é uma casa senão o que vivemos nela? A poucos dias de me mudar para um novo apartamento, tenho pensado muito nisso. Se bem que “novo” talvez não seja a melhor forma de descrevê-lo: trata-se de um velho conhecido, que já habitei por mais de dez anos. Renovado, é verdade (a reforma foi radical), mas novo, não.

Nele passei por muita coisa. Morei com namorado, separei, vivi sozinha, dividi com amiga, sozinha outra vez, juntei, casei, tive dois filhos, escrevi um livro… Não perco a oportunidade de contar que o caçula nasceu sob aquele teto, no parto planejado para acontecer em casa, com toda a assistência, numa piscina inflável no meio da sala. O primogênito e o pai cortaram o cordão umbilical. Lá nossa família ficou completa.

O bebê cresceu, e decidimos ir para um lugar maior. No dia da mudança, nosso lar logo se esvaziou de objetos e móveis, embora ainda estivesse repleto de memórias. Minha angústia transbordou em lágrimas ao dar a última olhada atrás da porta e deparar com as marcas do crescimento dos pequenos inscritas a lápis na parede. Como eu poderia viver longe dali?

Passou. O endereço escolhido nos seduziu. No último andar de um prédio equilibrado no ponto mais alto de um espigão, o apê nos presenteou diariamente, durante quase três anos, com uma vista incrivelmente generosa: o horizonte aberto e o mar de edifícios de São Paulo. Como abrir mão disso agora?

Vai passar. Imagino que sentirei saudades do cotidiano na varanda – os meninos tomando banho de mangueira (em tempos de pré-crise hídrica), o pai os ensinando a jogar xadrez, o primeiro Réveillon que o mais velho passou acordado para ver os fogos enquanto o outro dormia sem se abalar por causa do barulho. Hoje mesmo, foi lá que eles ficaram entretidos, ao lado de dois amigos, com um barquinho numa bacia d’água (sem desperdício!) enquanto eu me refugiava para escrever esta crônica.

Graças à reformulação do antigo endereço, os filhos ganharão um quarto maior e um pequeno banheiro. Eu e o marido teremos mais privacidade na suíte (oba, um chuveiro só para nós!). Sim, arquitetos são capazes de fazer verdadeiros milagres na planta (obrigada, Juliana). Com os filhos crescidos, caiu também a fronteira entre a cozinha e a sala – bom poder preparar o jantar sem divisórias nos isolando. Estamos tranquilos para começar outra etapa. Ou retomar, mais maduros, uma velha história.

 

*Luciana Benatti é jornalista. Trabalhou em várias publicações da Editora Abril e é autora, junto de Marcelo Min, do livro Parto com Amor (Panda Books). Colabora com a associação Casa Azul, que realiza a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

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