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Rubem Alves: Coitado do corpo…

É bom pensar que competições como a de Pequim nem sempre são motivadas por amor ao corpo e ao seu prazer. O que está em jogo é a comparação - sentimento que pode ser tóxico

Por Rubem Alves
Atualizado em 21 dez 2016, 00h02 - Publicado em 4 abr 2013, 17h03
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Com a proximidade das Olimpíadas lembrei-me de um professor de educação física que defendia a tese de que atletismo faz mal à saude. E argumentava: “Você conhece algum atleta longevo? Quem vive muito são aquelas velhinhas sedentárias que tomam chá com bolo no fim da tarde…”

Quando ele me disse isso pela primeira vez lembrei-me logo de minha mãe, que acreditava que a vida é um combustível que acaba mais depressa se se acelerar muito. Meu tio, que era médico, sentenciava: “Nunca fique em pé quando puder ficar sentado. Nunca fique sentado quando puder ficar deitado”. Minha mãe seguiu rigorosamente o conselho do irmão. Morreu aos 93 anos.

Vejam o que aconteceu com a Florence Griffith Joyner, corpo fantástico, só músculos, a mulher mais rápida do mundo, detinha há dez anos os recordes mundiais dos 100 e dos 200 m. Impossível que fosse morta por um infarto. Mas foi.

O sentido original da palavra stress pertence à física, no campo da mecânica aplicada. O seu objetivo é determinar a resistência de um material – o que é de fundamental importância na construção de pontes, edifícios, aviões. Para determinar a resistência de um material é preciso submetê-lo a stress, isto é, a forças, até o ponto dele se partir. O ponto em que ele se partir será o seu limite.

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O atletismo é a aplicação, sobre o corpo humano, das técnicas de stress para determinar a resistência dos materiais. A competição tem por objetivo determinar o ponto além do qual o corpo não consegue ir. Os recordes estabelecem a performance máxima do corpo submetido a stress máxima.

A competição é essencial ao atletismo porque é só através dela que se podem fazer comparações. Comparo vários materiais para determinar sua resistência a um tipo de stress. Comparo vários atletas por meio da competição para ver qual deles tem o melhor desempenho quando submetido ao stress máximo. O corpo da Florence Griffith Joyner não agüentou. Arrebentou como um fio arrebenta se seu limite é ultrapassado. Se o atletismo é isso, a tese do professor de educação física a que me referi acima está plenamente justificada.

O que move o atleta não é o prazer da atividade, em si mesmo. Se assim fosse, ele ficaria feliz em correr, nadar, saltar, sem precisar de comparar-se com outros. Mas depois de correr ele consulta o seu relógio. Está comparando o seu desempenho em relação aos outros. Quando a gente se envolve numa atividade por prazer, a gente está brincando. Não olha para o relógio. É o caso das crianças correndo – como potrinhos. Ou na água – como golfinhos. O espaço, representado pela grama, pela água, pelo vazio, é o seu companheiro de brincadeira. A atividade lúdica produz um corpo feliz.

Uma razão para o esforço

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A competição, representada no seu ponto máximo pelas Olimpíadas, é o oposto do brinquedo. Porque ela só acontece quando o corpo é levado ao limite do stress. E o corpo, mais sábio que os atletas, não gosta disso. Ele sabe que é perigoso chegar aos limites. O corpo não gosta de competições e Olimpíadas. Competições e Olimpíadas são situações a que o corpo é submetido ao máximo stress. Ou seja, situação de máximo sofrimento do corpo. O corpo vai contra a vontade. Basta observar a máscara de dor no rosto dos que competem. A competição é uma violência a que o corpo é submetido. A imagem mais terrível que tenho dessa violência é a daquela corredora suíça, ao final de uma maratona, algumas olimpíadas atrás. Chegando ao estádio o corpo dela não agüentou. Os ácidos e o cansaço o transformaram numa massa amorfa assombrosamente feia. Ele não queria continuar; desejava parar, cair. Mas isso lhe era proibido. Uma ordem interna lhe dizia: obedeça, continue até o fim. O público parou, perplexo. E ninguém podia ajudá-la. Se alguém o fizesse, ela seria desclassificada. O comentarista, comovido, louvava o extraordinário espírito olímpico daquela mulher. Ele não compreendia o horror. De fato, o final do espírito olímpico é o corpo levado aos limites últimos de stress. Aos limites do sofrimento. Como o corpo escultural de Florence Griffith Joyner.

Haverá coisa mais anticorpo, mais antivida? A competição não é motivada por amor ao corpo e ao seu prazer. Na competição o espaço não é companheiro de brincadeira, é inimigo a ser derrotado. O prazer de quem compete não se encontra na relação corpo/espaço, mas no resultado: quem teve a melhor performance. O objetivo da competição é a comparação. E a comparação é o início da inveja e da infelicidade humana.

O atletismo não é uma atividade natural. Animais não competem. Nenhum tem interesse em saber qual é o melhor. Eles não se comparam. Animais correm por prazer: cães e cavalos correm e pulam por prazer. Mas, quando não estão brincando, isto é, quando não estão envolvidos no prazer da atividade, eles não fazem esforços desnecessários. Só existe uma situação quando competem: onça e veado, gavião e coelho – quem perde ou morre ou fica com fome. O que não é o caso das pistas de atletismo.

 

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Rubem Alves nasceu no interior de Minas Ge­rais e é escritor, pedagogo, teólogo e psicanalista.

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