O futuro do pretérito sem água

Naquela manhã de 1907, de repente, o volume do Rio Tietê inundou a casa dos Fregonezis. No mesmo dia, as torneiras secaram. Como isso foi possível?

Por Por Gabriel Kogan* Ilustração Juliana Russo Atualizado em 14 dez 2016, 12h29 - Publicado em 12 jan 2015, 15h35
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A casa de Vicente – na insalubre várzea da região do Bom Retiro – foi invadida sem aviso pelo Rio Tietê. A família Fregonezi não se esqueceria daquela trágica manhã do dia 1º de março de 1907: enquanto tentava salvar suas poucas coisas da inundação, via a torneira secar. O desabastecimento já durava semanas. “Como pode tanta água aqui no rio e nada nos canos?”, perguntava a filha com ar de ingenuidade.

Vicente dividia seu tempo entre a família, as longas jornadas na fábrica e os textos para o jornal anarquista Terra Livre. Conhecia bem a outra próspera metrópole das regiões altas e secas. “Água temos, até demais – inclusive levando nossas cadeiras agora –, mas está poluída”, esforçou-se para o inexplicável. “Poluída não para todos, pois lá na área seca dos morros, nas bandas da nova Avenida Paulista, não há de faltar.” Lembrou que, menos de 15 anos atrás, recém-chegado da Itália, nadava todos os dias no limpo Tietê. O esgoto daquela cidade em explosão vinha parar nas partes agora sujas das várzeas, onde – sem água nos canos e com o rio batendo à porta –, para seu próprio desgosto, era forçado a morar por causa do baixo preço.

Mas como seria o futuro sem água nessas terras inundadas? Não muito diferente de como foi no passado. As fontes alternativas, a exemplo dos poços e nascentes públicos, tinham sido fechadas na virada do século 19 para o 20 pela Repartição de Águas e Esgoto (RAE), então de olho no aumento da arrecadação e sob o pretexto de preservar a saúde pública. Os Fregonezis e seus vizinhos dependiam de curtos períodos de abastecimento. “Tragam-me outra bacia. Vamos deixar esta na sala.”

Na manhã seguinte ao desastre em sua morada, Vicente estava na fábrica, sempre com as caixas-d’água cheias e máquinas protegidas contra a fúria das enchentes. A sinfonia da futura metrópole não podia parar, mas a resposta para a filha permanecia incompleta. Como entender tal paradoxo? E quanto tempo essa cidade continuaria a crescer desprezando sua população e seus rios, que já pareciam ter fins e donos? As águas acabariam? Para quem e quando, afinal?

*Gabriel Kogan é arquiteto e jornalista. Seu mestrado no Institute for Water Education da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco-IHE), nos Países Baixos, estudou a origem histórica das enchentes em São Paulo.

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