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Mandalas representam a beleza do caráter transitório da vida

As mandalas são uma das formas de exercitar o desapego e entender que há grande beleza no caráter transitório da vida

Até 1988, ninguém, além dos monges tibetanos, tinha visto o que você está vendo nestas páginas. Como forma de aperfeiçoar a consciência da impermanência das coisas e dos eventos, eles aprendem dentro dos monastérios a confeccionar minuciosas mandalas de areia e depois desmantelá-las em segundos. “Até então, não era permitido a mais ninguém vê-las, mas, a partir daquele ano, o Dalai Lama nos autorizou a mostrá-las ao mundo”, explica o monge Tenzin Thutop, que veio ao Brasil para as comemorações da Semana da Cultura Tibetana, em Florianópolis, e criou uma dessas obras de arte. A peça, que simboliza a nossa relação com o Universo e com a divindade, consumiu 65 horas de trabalho durante uma semana. “Para vivermos em paz, temos que aceitar: somos todos turistas na Terra. Nada dura para sempre. Praticar o desapego é essencial para isso”, afirma.

No entanto, não criar apego ao que nos cerca não significa não se comprometer e ter responsabilidade com a vida, com as experiências e com as pessoas. Se assim fosse, viveríamos na mais profunda tristeza e solidão. Muito pelo contrário. A beleza dessa mandala, por exemplo, só existiu porque Tenzin Thutop se entregou a ela com muito amor, cuidado e respeito. “Temos, sim, que nos envolver nas relações e zelar por aquilo que possuímos. O que não se deve é criar uma projeção exagerada exigindo das pessoas e das coisas funções e qualidades que elas não têm”, explica a psicóloga Bel Cesar. Em outras palavras, quantas vezes não criamos grandes expectativas achando que um carro, uma roupa, uma casa, um grande amor, um emprego ou uma viagem iria nos satisfazer e, no entanto, só trouxeram lamento e frustração? “Normalmente, isso é decorrência da baixa autoestima. Não nos sentimos capazes de conquistar, gerar coisas novas, então, nos agarramos ao que temos”, explica Bel. Quando nos desvalorizamos, achamos que somos insuficientes e passamos, então, a olhar as pessoas e as coisas como se fossem a única saída para sermos felizes, termos paz, conquistarmos o que queremos, enfrentarmos os desafios. “Mas, dentro de nós, há centenas de recursos esperando para ser usados, como a perseverança, a concentração e a intenção. É preciso descobri-los e acioná-los”, avisa Bel. Dessa forma, ganhamos autoconfiança e evitamos dissabores, ela garante.

Claro que ninguém gosta de perder aquilo que lhe é caro, mas ameniza a dor perceber a transitoriedade da existência. Quando fala sobre o apego, o lama Padma Santen costuma dar um exemplo. “A gente sofre por não ter o que quer. Depois, sofre porque tem o que quer, mas tem medo de perder. Depois, sofre por não ter mais. Mas esse giro é inevitável, é a impermanência da vida”, diz ele. Para nós ocidentais, é mais difícil entender dessa forma porque somos acostumados a ver as experiências sob a ótica linear, com começo, meio e fim. Por outro lado, os orientais as enxergam de forma cíclica. “O pensamento budista é: o fim de algo é o começo de outro”, diz o lama. Uma morte é seguida de um nascimento, a perda de um amor abre portas para o recomeço, um emprego que julgávamos como o melhor do mundo pode ficar em segundo lugar no pódio ao aparecer outro e por aí vai. “Quando observei a minha vida e percebi que tudo funciona dessa forma, perdi o medo de desistir do que foi para mim na época um grande sonho: o de ser juíza”, revela a advogada Isadora Julião. Após cinco anos prestando concursos, sem ser aprovada nos exames, ela ficou doente e com baixa autoestima. “Passei a advogar e hoje me sinto completamente realizada. Ter desapegado daquele grande projeto trouxe alegria e a minha saúde física, mental e emocional de volta”, diz ela. É por isso que o monge Tenzin Thutop não tem medo de desmanchar suas mandalas e depois construir outras e mais outras…

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