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Gandhi, Martin Luther King e Nelson Mandela: eles lutaram pela paz

Construir a paz é um trabalho para ser feito em grupo. Como deixar de culpar os outros e assumir as responsabilidades do que se pode mudar como fizeram grandes homens

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O mundo parece contraditório, como se fosse regido por forças antagônicas. Enquanto uns lutam pela paz, outros seguem na direção do conflito. Há muito tempo tem sido assim. Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, de um lado existiu Hitler, que coordenou uma tropa de alemães e matou milhares de judeus. Do outro, estava Irena Sendler, uma polonesa, assistente social, que salvou mais de 2 mil crianças judias quando os alemães invadiram Varsóvia, capital de seu país. “Todos os dias, ela ia ao gueto onde os judeus ficavam encarcerados até morrer de fome. Roubava um ou dois bebês e os colocava na ambulância que dirigia. Chegou a treinar seu cachorro para latir quando um deles chorasse e assim despistar os militares. Depois de recolher as crianças, as entregava nos conventos próximos para ser adotadas”, conta Lia Diskin, cofundadora da Associação Palas Athena, editora que lançou, no mês passado, o livro A História de Irena Sendler – A Mãe das Crianças do Holocausto. Em outro momento histórico, na década de 1960, após anos de horrores da Guerra do Vietnã, o movimento hippie surgiu nos Estados Unidos clamando por paz e amor com um gesto (ilustrado na página anterior) que forma a letra V com os dedos e que também significou o V da vitória com o fim da guerra. Na mesma época, o ex-beatle John Lennon lançou Imagine, que se tornou uma espécie de hino pacifista ao convocar o mundo a imaginar todas as pessoas vivendo em paz. Atualmente, vemos a guerra no Oriente Médio, onde praticamente todos os dias morrem pessoas. E, em contrapartida, há ações como a que se formou na rede social do Facebook chamada Turning a New Page for Peace (construindo uma nova página para a paz), com pessoas de diferentes nacionalidades, principalmente israelenses e palestinos, que travam uma guerra religiosa há décadas. “Faz três anos que o grupo discute o melhor caminho para entrar num acordo viável para os dois países. Em julho último, nos encontramos pessoalmente na Cisjordânia, na cidade de Beitjala, onde é permitido a presença das duas nacionalidades. O objetivo era humanizar aquele que se considera inimigo, ver que ele tem um rosto e que também sonha por paz como ele próprio”, explica a brasileira Rafaela Barkay, que faz mestrado em estudos judaicos na Universidade de São Paulo (USP) e esteve presente nesse encontro. Também este ano, em Istambul, a maior cidade da Turquia, após confrontos violentos entre a polícia e ambientalistas, o artista Erdem Gunduz encontrou uma forma mais eficiente de protestar sem usar a violência e despertou a atenção do mundo todo. “Fiquei parado durante oito horas e centenas de pessoas se juntaram a mim no mesmo ato. A polícia não sabia o que fazer conosco. Na nossa cultura, gostamos muito deste ditado: ‘As palavras valem prata e o silêncio ouro’ ”, conta ele. Já em Karachi, no Paquistão, quando o educador Nadeem Ghazi descobriu que o maior índice de uso de drogas e de homens bomba estava entre jovens de 13 a 22 anos, desenvolveu a Peace Education Welfare Organization (organização de assistência à paz na educação), que atua em diversas escolas. “Os jovens criam seus comportamentos conforme o que observam. Como vivemos em conflito com o Afeganistão, eles assistem à violência durante todo o tempo. Então, nosso projeto mostra a eles o outro lado da moeda, que a paz é possível”, diz Nadeem.

O que é paz?

 

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É natural, portanto, que o conceito de paz esteja associado unicamente a um ato não violento – o oposto de lutas entre os povos por dominação econômica ou religiosa. “No entanto, esse termo não implica somente ausência de violência mas também respeito aos direitos humanos e justiça social, econômica e política. Se olharmos com atenção, a causa dos grandes conflitos tem a ver com todo tipo de injustiça, como pobreza, discriminação e acesso desigual às oportunidades”, afirma Fábio Eon, coordenador adjunto de ciências humanas e sociais da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

“Nesse sentido, as manifestações pelas quais estamos passando no Brasil são positivas, pois é o povo unido, consciente de que melhorias precisam ser feitas, não só no transporte mas em todos os segmentos que afetam a dignidade humana, como a educação, o trabalho e a saúde. Mas protestar pode e deve ser sempre uma ação não violenta”, avalia Lia, também coordenadora do Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz e Não Violência. O movimento, promovido pela Unesco e programado para acontecer de 2001 a 2010, foi um dos mais importantes no sentido de respeitar os direitos humanos e deu notoriedade ao termo “cultura de paz”.

Assinado por mais de 160 países, promoveu benefícios para milhares de pessoas em setores como arte, educação, alimentação, cultura e esporte – e o Brasil, depois da Índia, se destacou como o que mais teve adesões de instituições governamentais e da sociedade civil. A década acabou, mas, diante da relevância do tema, os programas continuam com novo nome: Comitê da Cultura de Paz. “Criar uma cultura de paz significa educar para uma convivência pacífica. É diferente da cultura de guerra, que tem características como individualismo, dominação, intolerância, violência e autoritarismo. O cultivo da paz prega a parceria, a boa convivência, a amizade, o respeito pelo outro, o amor e a solidariedade”, diz o professor americano David Adams, um dos principais articuladores da Década. Em outras palavras, é necessário agir de forma coletiva. “A paz tem que ser construída, e isso só ocorre com aquelas pessoas que já se deram conta de que nós não vivemos, mas convivemos. A vida é feita de relações humanas. Fazemos parte de uma rede, estamos todos interligados”, explica a monja Coen, expoente da comunidade zen-budista no Brasil. O inspirador documentário Quem Se Importa? trata justamente disso ao mostrar empreendedores sociais que, por iniciativa própria, vêm mudando a realidade de comunidades do Brasil, Peru, Canadá, da Tanzânia, Suíça, Alemanha e dos Estados Unidos. É o caso da médica pediatra carioca Vera Cordeiro, que criou a Associação Saúde Criança Renascer. “Percebi o desespero das famílias carentes quando seus filhos doentes recebiam alta, mas tinham que continuar o tratamento em casa. O projeto as auxilia por dois anos com a doação de remédios, alimentos e roupas, por exemplo”, conta ela. “Muitas vezes, são soluções simples para questões graves, como a evasão escolar e a pobreza extrema. O trunfo desses empreeendedores é apresentar respostas e não lamentações”, afirma a carioca Mara Mourão, diretora do documentário.

Ligados pelo mesmo fio

 

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O francês Pierre Weil (1924-2008), fundador da Unipaz, escola voltada, como o nome já diz, para a cultura e educação pacífica, defendia que a ideia de separatividade é o grande mal do homem. “Quando não nos vemos como parte do todo, temos a impressão de que só o outro precisa cuidar do espaço onde vivemos; nós, não. Você não percebe, por exemplo, que sua ação interfere no próximo e que a natureza faz parte da sua vida. Por isso, o homem a destrói”, explica Nelma da Silva Sá, terapeuta social e presidente da Unipaz São Paulo.

Mas sabemos que as coisas não funcionam bem assim, não é mesmo? Basta observar que o trabalho de cada um sempre depende do outro para funcionar. A água que bebemos vem dos rios e, se não cuidarmos do nosso lixo, eles ficarão poluídos, o que nos prejudicará. Para Lia Diskin, um ponto que impede essa espiral de funcionar perfeitamente é a falta de confiança mútua. “Normalmente, apresentamos certa resistência em aceitar que podemos, sim, aprender com a história de vida alheia, com suas habilidades e talentos. Isso tem a ver com autoafirmação, ou seja, preciso mostrar ao outro o muito que eu sei e que eu tenho razão. Mas é preciso desarmar essa estrutura interna e perceber que estamos aqui num estado de dependência absoluta.” Aliar o sentimento de comunidade a desapego pode exercer uma força favorável à convivência pacífica. Pois, quando não nos sentimos participantes na construção do coletivo, desenvolvemos uma grande necessidade, quase compensadora, de posse, tanto de objetos quanto de pessoas. “Isso gera sofrimento já que, se não temos, queremos o que o outro tem. Se nos é tirado, manifestamos raiva; se perdemos, ficamos tristes ou enciumados”, afirma Lucila Camargo, vice-presidente da Unipaz São Paulo. Wolfgang Dietrich, detentor da cátedra da paz da Unesco, que vem ao Brasil em novembro para o seminário internacional A Visão Contemporânea dos Estudos de Paz e Conflito, na Universidade Federal de Santa Catarina, acredita que, ao nos livrarmos dos aspectos do ego, dissolvemos as fronteiras do eu e do nós. “Nesse momento, começamos a perceber a unidade em tudo que existe no mundo, e os conflitos perdem a razão de ser”, defende ele. É como Márcia de Luca, idealizadora do evento Yoga pela Paz, diz: “Sempre antes de agir pense: ‘Isso que é bom para mim também faz bem para a coletividade?’ ”. Se a resposta for sim, você já sabe de qual lado está neste mundo aparentemente contraditório.

Homens que lutaram pela paz

 

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Brigar pelos direitos de seus povos com inteligência e brandura foi a arma usada por três dos principais líderes pacifistas da história. Precursor da ideia, o indiano Mahatma Gandhi criou a filosofia chamada satyagraha (satya = verdade, agraha = firmeza), que deixava claro: o princípio de não agressão não implica agir com passividade perante o adversário – no caso a Inglaterra, país do qual a Índia era colônia –, mas em se apoderar de artimanhas – como incentivar seu povo a boicotar os produtos têxteis ingleses e investir no tear manual do país. Seguindo os princípios dele, Martin Luther King batalhou pelos direitos civis dos negros americanos organizando greves e conclamando-os a evitar propositalmente o transporte público, já que dentro dos ônibus eles eram obrigados a ceder lugar aos brancos. Caminho parecido tomou Nelson Mandela, feito prisioneiro 28 anos por coordenar greves e protestos contra as políticas segregacionistas. Ao deixar a prisão, se tornou o primeiro presidente negro da África, em 1994. Gandhi conseguiu aindependência da Índia em 1947; e Luther King, a aprovação das leis dos direitos civis e do direito de voto, em 1965.

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