Escolhas: arranha-céu ou prédio de dois andares?

Depois que mudei para um arranha-céu, compreendi por que o predinho de dois andares da minha infância me faz tanta falta

Por Da redação Atualizado em 14 dez 2016, 11h57 - Publicado em 28 nov 2013, 20h32
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Nasci na capital paulista, num prédio charmoso da década de 70. Com apenas dois andares e dez apartamentos, ele se tornou um reduto muito significativo em minha infância e na de vários moradores. Foi lá que iniciamos nossas primeiras e verdadeiras amizades. Até hoje, quando nos reunimos, sempre nos lembramos de alguma história vivida no prédio da rua Tutoia. Mais tarde, percebi que aquela morada trazia, além de bons vizinhos, vários elementos de uma arquitetura que me faz falta. Pastilhas verdes revestiam um bom trecho da fachada, e o granilite bege clarinho cobria todo o chão, fazendo uma composição com as paredes texturizadas da mesma cor. Janelas amplas, com sistema de guilhotina, subiam e desciam com muita frequência – éramos nós, jogando bola da janela do quarto para o time adversário, que ficava no piso abaixo, a garagem. Elevador não existia. O exercício para as pernas era obrigatório nas escadas largas. Já os menores se divertiam escalando ou escorregando pelo corrimão, também de granilite. O corredor comum recebia iluminação natural durante parte do dia graças ao vidro das portas de serviço. O apartamento de 140 m²  tinha três amplos dormitórios, e um deles contava com porta-balcão e terraço. A cozinha, no centro da planta, dava acesso a mais duas varandas. Quanto respiro! Quanta luz! Um defeito: éramos oito para dividir um banheiro social e um de serviço. Imperfeições à parte, vivíamos no Paraíso – literal e metaforicamente. O bairro paulistano nos atendeu bem, com praça, parque, comércio, boas escolas, casinhas e edifícios baixos. Pena que cedi às tentações do mercado imobiliário, seja pelo glamour embutido nas estratégias de marketing, seja pela oportunidade de negócio. Hoje, moro num desses arranha-céus que bloqueiam o sol e a visibilidade dos que se aproximam. Por outro lado, oferece aquela sacada espaçosa em que tanto gostamos de ficar, acesso fácil ao metrô e a dois ótimos espaços de lazer: o Memorial da América Latina e o Parque da Água Branca. Enfim, morar em São Paulo não é simples. É preciso eleger critérios para viver mais feliz. Nessa busca da felicidade, procuro educar minha filha, que acaba de fazer 3 aninhos, com base em valores e crenças nos quais acredito. Dias atrás, deparei-me novamente com essa questão do morar. Larissa ganhou o livro 4 Casinhas (Cultura), escrito e ilustrado pelo arquiteto Ivo Minkovicius. Li para ela a história nostálgica de quatro famílias vizinhas que deixaram suas moradas coloridas e numeradas de 1 a 4 para dar lugar a um prédio enorme. E quando minha pequena realmente entender a moral dessa história?

*Livia Saddi é jornalista e pós-graduada em marketing. Colabora com a organização do prêmio o melhor da Arquitetura, de Arquitetura & Construção – trabalho que a deixou mais atenta à qualidade dos projetos em geral e, em particular, às questões urbanas que nos afigem.

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