Empresas conquistam lucro sem perder de vista a inclusão profissional

Sem descuidar de que o negócio seja lucrativo e não comprometa a capacidade do planeta de gerar recursos, empresas estão criando uma nova esperança de vida por meio da inclusão digital

Por Kátia Stringueto Atualizado em 20 dez 2016, 19h46 - Publicado em 16 Maio 2013, 19h20
01-empresas-conquistam-lucro-sem-perder-de-vista-a-inclusao-profissional

A Teoria de Maslow (divisão hierárquica proposta pelo psicólogo americano Abraham Maslow) diz que as necessidades humanas são escalonadas como numa pirâmide, sendo a base constituída por questões fundamentais, como comida e segurança do emprego e de recursos. Debates à parte – há teóricos que discutem ser possível a autorrealização no topo da cadeia independentemente de se terem satisfeitos os desejos primários ou não –, algumas empresas estão contribuindo com seu quinhão para que a base da pirâmide social esteja fortalecida. E seguem garantindo a sustentabilidade, antes de mais nada, ao cidadão.

A multinacional francesa Schneider Electric, há 65 anos no Brasil, criou um programa de desenvolvimento sustentável que busca ampliar o negócio à justa medida que aumenta a distribuição de eletricidade país afora. “Hoje, 1,27% dos domicílios brasileiros não têm eletricidade. E 3,6% têm acesso informal, o famoso gato, por desconhecimento das regras mínimas de segurança”, diz Denise Lana, coordenadora de Projetos Corporativos e Sustentabilidade. Para prover mais energia – segura –, a empresa colocou dois projetos em andamento. Um deles, em parceria com a Fundação Amazonas Sustentável, permite levar energia elétrica 24 horas por dia às comunidades de Tumbira e Santa Helena do Inglês, às margens do rio Negro. Antes, essas comunidades só conseguiam quatro horas de eletricidade por dia. “Desenvolvemos um modelo energético baseado na utilização de placas solares em combinação com o uso de gerador a diesel. O diferencial é que criamos tecnologia para o armazenamento da energia solar em baterias para que o gerador a diesel não precise ficar ligado o tempo todo nos longos períodos de chuva”, afirma Denise. A tecnologia inteligente aciona o gerador ao sinal de que a bateria acabou e o desliga assim que ela carrega novamente.

02-empresas-conquistam-lucro-sem-perder-de-vista-a-inclusao-profissional

Bom para todos

Para o ambiente, o processo representa 1 tonelada a menos de emissão de gás carbônico devido à redução de 80% no consumo de combustível usado no gerador. Para a população, mais tempo de energia disponível significa desenvolvimento. Nos postos de saúde, a vida útil das vacinas é estendida pelo acondicionamento correto. Nas pousadas, ficou mais fácil atrair o turista com a oferta de água fria e ventilador (num calor que pode chegar a 50 0C, se não for refrigerada, a água de beber é naturalmente morna). Estima-se que o custo por hora de energia disponível será reduzido de R$ 0,70 a R$ 0,06. O projeto ainda conta com oficinas de conscientização dos moradores. Como ferro e chuveiro elétrico, chapinha para cabelos e ar-condicionado consomem muitos watts, a comunidade criou um regimento próprio que veta a utilização desses eletrodomésticos em benefício de um tempo maior desfrutando do conforto da geladeira, do fogão e da TV. Outro impacto sensível está na criação de empregos. “Com a chegada da rede elétrica, é preciso ensinar a instalar e fazer a manutenção por meio de cursos de formação de eletricista”, diz Denise. “Para o nosso negócio, é fundamental que essa profissão seja digna e de qualidade”, completa ela, destacando que a empresa emprestou sua expertise para a confecção de um material didático mais simples e lúdico, apropriado a uma parcela da população semialfabetizada.

O projeto de formação de eletricistas, em convênio com o Senai, abrange todo o território nacional e a expectativa é que, até 2014, 20 mil pessoas tenham sido beneficiadas. Lançada em 2009, a iniciativa da Schneider Electric faz parte do programa BipBop (Business, Inovation, People at the Base of the Pyramid, que pode ser interpretado como alavancar negócios e inovações para as pessoas que estão na base da pirâmide social). Em Vila Velha, no Espírito Santo, por exemplo, Gisele Poltronieri do Nascimento, 33 anos, é instrutora do curso de introdução à eletricidade básica. A pedidos, montou uma turma de mulheres aos domingos. “Distribuímos a carga de 120 horas em aulas de 8 horas. Elas saem contratadas como auxiliares de obra, aumentando a renda mensal”, diz.

03-empresas-conquistam-lucro-sem-perder-de-vista-a-inclusao-profissional
Continua após a publicidade

Oportunidade de carreira

Mais que uma questão de princípio, a capacitação profissional é uma tendência. “O cenário da construção civil, por exemplo, aponta para um apagão de mão de obra qualificada em 2015, e algumas empresas tentam corrigir esse déficit com projetos de inclusão profissional”, contextualiza Rodrigo da Costa Aguiar, coordenador de Sustentabilidade e Instituto BM& FBOVESPA. Só para lembrar, a BM &FBOVESPA, em conjunto com o Instituto Ethos e o Ministério do Meio Ambiente, entre outras instituições, formulou o ISE – Índice de Sustentabilidade Empresarial – para referendar os investimentos socialmente responsáveis. Há 15 anos, a Associação Profissionalizante BM&FBOVESPA forma,anualmente, 500 alunos em seus cursos profissionalizantes. O projeto Faz Tudo é um deles e ensina sobre alvenaria, elétrica, hidráulica, assentamento de piso e pintura a jovens de 17 a 20 anos em situação de vulnerabilidade socioeconômica. Graças às empresas parceiras do programa, o índice de empregabilidade é de 75%. A história de José Cleiton Carvalho Freitas, 22 anos, morador de Ferraz de Vasconcelos, município da Grande São Paulo, dá a dimensão da influência de um projeto como esse. “Meus pais não terminaram o ensino fundamental e eu não sabia se comigo seria diferente. O Faz Tudo me deu mais do que interesse pela construção civil. Me deu uma visão de carreira. Comecei a trabalhar como ajudante de eletricista, prestei vestibular para engenharia e já estou no último ano. No começo, o salário de R$ 600 ia todo para a mensalidade da faculdade. Agora, com as promoções que consegui, ganho R$ 3 mil e já pago com um pouco de folga a mensalidade de R$ 890.”

Vê-se com bons olhos a preparação para o mercado de trabalho, além da preparação para uma vaga. “Os bons cursos técnicos estão levando isso em consideração, apresentando um cardápio de atividades que consideram a cidadania e os planos para o futuro. Um curso de eletricista pode ser, como se vê, o primeiro passo para uma faculdade de engenharia”, pontua Ivy Moreira, colaboradora da ONG Cidade Escola Aprendiz.

04-empresas-conquistam-lucro-sem-perder-de-vista-a-inclusao-profissional

Um passo além do esperado

No final de 2012, um olhar mais holístico também contagiou um gigante no universo da saúde. O Grupo Fleury quis compartilhar sua expertise em gestão de saúde com organizações não governamentais da área. “Já mantínhamos um projeto de capacitação de jovens para o mercado de trabalho, mas queríamos avançar pensando na melhoria do sistema de saúde como um todo”, explica Daniel Périgo, gerente sênior de Sustentabilidade da empresa. Desse reposicionamento surgiu o DOM, projeto destinado a tornar os processos de gestão dessas instituições mais ágeis e eficazes.

“Fizemos uma pesquisa para levantar as principais necessidades das instituições e descobrimos que poderíamos ajudar na melhoria do fluxo de atendimento e na gestão de projetos, inclusive financeira”, exemplifica Daniel.

Representantes de dez ONGs selecionadas (Apae, Casas André Luiz e Voluntariado Emílio Ribas, entre outras) desenvolveram, ao longo de três meses, um projeto prático com base no conteúdo trabalhado no programa de formação. Em fase de análise, os três melhores projetos vão receber do Fleury recursos em forma de material e de design para a ambientação adequada de uma sala, buscando adaptar ainda mais o acolhimento ao cliente. Entre as ideias concorrentes, está a de treinamento em biossegurança, elaborado pela médica Glória Letice Brandão Figueiredo Brunetti, fundadora e presidente do Voluntariado Emílio Ribas (VER), que presta apoio no setor de humanização aos pacientes do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, de São Paulo. “Uma das máximas do hospital é a biossegurança para evitar a troca de infecções entre pacientes e entre funcionários e pacientes. Nossos voluntários não são profissionais. Então, criei um projeto em que avalio se a pessoa sabe lavar bem as mãos, o veículo principal de transmissão de bactérias. Nele, o voluntário lava as mãos com os olhos vendados. Sem saber, recebe tinta em vez de sabão para que, ao final da lavagem, consiga ver as partes que continuam sujas, como punhos e entre os dedos.” Em que o Fleury ajudou? “O grupo é de excelência em gestão no trato de pessoas. E isso é nossa meta. Aprendi quais ferramentas são necessárias para montar um projeto: desde avaliar quanto vai custar, quem são as pessoas envolvidas, a função de cada uma, até a mensurar se está dando certo.” Propostas de capacitação profissional, como as que aparecem nesta reportagem, colaboram para uma base sólida rumo a um futuro melhor. Concorde-se ou não com a Teoria de Maslow.

Continua após a publicidade

Publicidade