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Mais que bebida, o vinho é um grande símbolo da arquitetura e do turismo

Como explica a arquiteta Vanja Hertcert, a bebida da uva também é a responsável pela valorização das edificações e atração de visitantes

Vinícola Luiz Argenta (RS).

Vinícola Luiz Argenta (RS). (Divulgação/Casa.com.br)

Paixão do deus grego Dionísio e símbolo forte em diversas culturas e religiões ao redor do mundo, o vinho é a bebida alcoólica produzida a partir da fermentação da uva. Mas isso você já sabe, não é?

O que talvez não saiba é que este mesmo produto é o grande responsável por um segmento inteiro de uma atividade turística – o enoturismo. Baseada na viagem motivada pela apreciação do sabor e aroma dos vinhos, a prática também imerge nas tradições e na cultura dos locais que produzem a bebida. Como um verdadeiro mergulho cultural, o enoturismo envolve o visitante em cada detalhe da produção.

Segundo a arquiteta Vanja Hercert, o local onde o vinho é concebido tem grande importância para a imagem que o produto terá. “Para o enoturista, não basta degustar. É preciso saber onde e como o vinho é elaborado”, diz ela. “Esta carga pode ser altamente positiva se os espaços estiverem adequados, com a luz certa, a temperatura ideal e até a harmonia que se traduz na garrafa”.

Responsável pelo projeto de vinícolas como Aurora, Luiz Argenta, Don Laurindo, Valduga – entre outras –, Vanja é um dos grandes nomes da arquitetura na Serra Gaúcha, na Serra Catarinense e no Nordeste. Se você planeja viajar para algum destes destinos, não deixe de conferir, abaixo, cinco dos projetos da arquiteta e curiosidades sobre o turismo do vinho:

Vinícola Aurora

Localizada em Bento Gonçalves, a vinícola Aurora é um dos grandes nomes da produção de vinho brasileira e pioneira no enoturismo nacional. A produtora conta com espaços que hoje se distribuem entre área de cultivo, sala de degustação técnica, loja de vinhos e enoteca – sendo estes dois últimos ambientes projetados por Vanja.

Para realizar seu trabalho, a arquiteta se inspira na identidade do local onde o vinho é produzido. “Pesquisas, um olhar atento e muita conversa com os envolvidos – tudo isto gera emoção, e sobre ela trabalhamos os ambientes”, conta ela.

“Um vinho produzido no Nordeste brasileiro não poderá se confundir com um vinho de outra região, porque, simplesmente, ele terá uma carga cultural muito forte que expressará naquele terroir“, diz. 

Terroir, segundo Vanja, é um conceito do mundo do vinho composto de três pilares: uva, terra e homem. Se traduz como a força da variedade escolhida somada à força da terra e do clima, que se somam também à mão do homem e seus processos de condução no campo e na vinícola, naquela região específica.

Vinícola Luiz Argenta

Para a arquiteta, o projeto da vinícola Luiz Argenta foi um dos maiores destaques de sua carreira. “Quando foi inaugurada, há uma década, ela representou uma quebra de paradigma. Um projeto totalmente novo, com empreendedores novos no setor do vinho, que aportaram modernidade e tecnologia. Até então havia um certo temor de apresentar o novo, parecia que o mundo do vinho tinha que nascer velho. E não foi assim, neste caso. Tínhamos tudo para abrir o olhar para o futuro”, explica Vanja.

Com a identidade inédita impressa no projeto, abriu-se um caminho para outros empreendimentos entenderem que a tradição sempre estará na elaboração do vinho, e não forma como ele será elaborado. 

Fundada em 2009, a vinícola se localiza em Flores da Cunha (RS). Entre os prêmios que ganhou, estão o de Uma das Mais Belas Vinícolas do Mundo (Revista Adega, 2010) e Melhor Vinho Brasileiro: Merlot Uvas Desidratadas 2009 – 91 pontos (Guia Adega de Vinhos, 2014/2015).

Vinícola Don Laurindo

A história da vinícola Don Laurindo começa em 1887, quando Marcelino Brandelli deixa a Itália e chega a Bento Gonçalves (RS), sobrevivendo da agricultura rudimentar e do plantio de videiras, cujo vinho se destinava ao consumo da família

Tradição transmitida de pai para filho, a cultura do vinho alcançou Laurindo, o neto de Marcelino, que se dedicou a produzir e a elaborar vinhos finos de castas nobres. Hoje, o que excede do consumo familiar é comercializado.

Em contraste à família ítalo-brasileira, Vanja explica que, hoje, existe uma demanda interessante de novos produtores. “Eles não tinham um ligação com o mundo do vinho, mas buscam neste produto um mundo de encantamento e experiências, com a certeza de produzir um pouco de arte em cada garrafa”, diz.

“Cada vinho será único, como cada momento em que ele será desfrutado. E esta mágica só o mundo do vinho tem!”.

Vinícola Pizzato

Também provindo da Itália, Antonio Pizzato imigrou para o Brasil ao fim da década de 1880. Tocada por sua família no Vale dos Vinhedos (RS), a vinícola Pizzato contribui para fazer do vinho uma bebida de identidade única, da produção de uvas à elaboração e comercialização dos vinhos.

Assim como os grandes esforços para manter uma vinícola em funcionamento e gerar bons resultados com uma produção de destaque – como a garantia da identidade –, a elaboração de um projeto também conta com alguns desafios.

Segundo Vanja, os maiores são a logística de produção; a qualidade do espaço exigida pelo vinho; uma melhor expressão e a cenografia – a criação de espaços que encantem e imprimam na memória do turista. “Tudo isto deve coexistir sem conflitos, com circuitos que se toquem, mas não se cruzem”, diz a arquiteta.

Hotel Villa Michelon

Localizado também no Vale dos Vinhedos (Bento Gonçalves, RS), o Hotel Villa Michelon é um pouco diferente dos outros projetos apresentados. Como um grandioso complexo turístico, o local é definido pelos proprietários como “onde se pode sentir e viver os costumes e a cultura da Serra Gaúcha”.

Os generosos 230 mil m² se espalham na vista deslumbrante, abraçando o Memorial do Vinho, a Casa do Filó e o parque infantil temático Piazza dei Bambini. Os turistas das vinícolas da região, abertas à visitação o ano inteiro, enxergam no hotel projetado por Vanja uma pausa.

A arquiteta tem acompanhado o nascimento de empreendimentos inovadores, que geram oportunidades de desenvolvimento em harmonia com a paisagem e a cultura local. É isso que ela também busca inserir em seus projetos, que contam com práticas sustentáveis no planejamento.

Fechar os olhos para o entorno será imperdoável, para toda e qualquer atividade humana, de aqui para todo o sempre. Com o vinho não será diferente. É fundamental respeitar o meio ambiente, a cultura local, o compromisso social e até econômico”, explica.

Vanja também foi a responsável por pensar a arquitetura das vinícolas Braz, MandacaruMarco Luigi, Reserva Brandelli, ChandonGuaspari(em obras), Davo, Lovara e da Pousada Borghetto, além da loja de vinhos da Valduga.

Para conhecer mais sobre o seu trabalho, clique aqui.

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