Reforma modernizou sobrado sexagenário sem abrir mão da história

A possibilidade de aprimorar o sobrado sexagenário, desfigurado após sucessivas intervenções, agradava ao arquiteto e à sua mulher, filha dos donos. Mas calou forte no coração e definiu a escolha pela reforma a infância alegre que a moça passou ali

Por Texto Joana L. Baracuhy | Visual Mayra Navarro Atualizado em 9 set 2021, 14h05 - Publicado em 1 mar 2016, 09h00

Os fatos eram claros, mas não decisivos. A localização: um bairro tranquilo e agradável, ao lado de uma área tombada de São Paulo. Ali mesmo onde décadas atrás o arquiteto e engenheiro Jarbas Karman (1917-2008) fez loteamentos e ergueu amplas casas para famílias da época viverem confortavelmente. O imóvel: um sobrado enxuto, organizado em três patamares no terreno de 168 m² e bastante alterado após várias adaptações para servir ao comércio. 

Quando Marina, cientista política e mulher do arquiteto Gabriel Grinspum (do Ateliê GR de Arquitetura e Urbanismo), ficou grávida, a questão enfim se apresentou – com certeza a família em gestação caberia melhor numa morada com quintal, sol e espaço livre, do que num apartamento compacto. E os pais da moça, gentilmente, se dispunham a ceder a residência descrita acima (na qual viveram por anos, mas que permanecia alugada) para o futuro trio habitar – curiosamente, a edificação abrigava na ocasião o instituto idealizado pelo próprio Karman, consagrado pela atuação no ramo hospitalar, e que planejara também aquela vizinhança repleta de verde e ruazinhas sinuosas. Mas… seria preciso reformá-la.

Com olhar de especialista, Gabriel avaliou a situação. Encontrou dificuldades e potenciais. Acrescida ao original, a edícula roubava o pouco de jardim existente. Um vasto banheiro dividido ao meio definia duas suítes destrambelhadas. Placas de ardósia substituíam os antigos taquinhos e portas de vidro espelhado envelopavam as fachadas. Resumindo, não se vislumbrava uma empreitada simples, ao mesmo tempo que a renovação precisava ter baixo custo para caber nos planos do casal. Como decidir? Nessa hora, a emoção aflorou eliminando o dilema. “Fui percebendo os vínculos: minha mulher se lembrava da velha escada de granilite, reconhecia o escritório do pai…”, enumera o arquiteto, que assumiu o projeto e a obra visando retomar qualidades originais da construção e alterá-la com simplicidade e economia. Assim, o anexo dos fundos veio abaixo, muitos ambientes retomaram suas configurações iniciais e o patamar inferior, repleto de pilotis e vigas, tornou-se menos fragmentado.

Foram oito meses de visitas diárias ao local e embates contínuos entre razão e emoção. A objetividade venceu muitas vezes, e a reforma se ateve ao orçamento. Mas o coração saiu vitorioso de algumas batalhas, como a da cobertura. Gabriel não se conformou diante da velha estrutura de madeira e telhas de fibrocimento e fez valer sua sensibilidade. “Quis deixar o conjunto seguro e confortável, mas também bonito, num bloco único”, explica sobre a adoção da opção metálica e sem beirais que hoje protege a construção e sua jovem família.

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