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Por que alguns casais (felizes) preferem dormir em quartos separados?

A harmonia na vida a dois pode até melhorar quando cada um tem seu espaço, como você lerá nas histórias abaixo. Arquitetos, médicos e historiadores comentam a tendência.

Juntos há 13 anos, o casal Cislene Mallon, 43, e Dídimo de Moraes, 47, não dorme na mesma cama. Se eles estão a um passo da separação? Não, nada disso. A história é a seguinte: depois de partilharem a cama em outros relacionamentos, Dídimo e Lena (como Cislene prefere ser chamada) passaram um tempo solteiros, mas mantiveram o costume de dormir numa cama de casal. Estavam acostumados a se esparramar, sozinhos, pelo colchão. E, também, a ter seu próprio espaço. E não abriram mão disso quando decidiram dividir o mesmo teto. “Eu adorava o meu quarto quando dividia a casa com minha irmã. Quando fui morar com o Di, foi tudo tão natural que me mudei direto para o meu quarto novo – sozinha”, conta Lena. Dormir junto, só aos finais de semana. Comparando as experiências, eles atestaram que, de fato, era melhor continuar dormindo separados de segunda a sexta. E foi assim que eles deram início à vida a dois.

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Para casais como Dídimo e Lena, que fazem essa opção, o quarto de casal, como manda a tradição, perdeu o sentido. “A diversidade de atividades que a vida moderna oferece fez com que o quarto de casal fosse perdendo a praticidade. Antes era só o lugar de dormir e do sexo. Ponto. Hoje, é também um espaço para viver um pouco a sua privacidade, a sua individualidade”, explica a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Programa de Estudos em Sexualidade da Faculdade de Medicina da USP. Dídimo aprova: “É ótimo. Você faz o que quiser, na hora em que quiser, sem incomodar o outro”. Ele gosta de assistir a filmes e séries de TV até tarde. Lena prefere ler um livro ou assistir aos capítulos gravados da novela. Cada um com seu espaço, eles não precisam negociar o que fazer antes de dormir.

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Pela qualidade do sono

 

Hábitos e problemas ligados ao sono são outros fatores importantes na decisão de ter quartos independentes em casa. O primeiro casal que procurou o arquiteto Cesar Harada, há 15 anos, fez essa opção porque o marido roncava demais. “E eu entendi perfeitamente na primeira vez em que me solicitaram. Eu ronco também”, diz Harada. Esse problema também motivou uma das clientes da arquiteta de interiores Regina Adorno. “Eles dormiam juntos, mas ela acabava acordando por causa do ronco dele e ia continuar a noite de sono em outro cômodo da casa. Então, ela decidiu se mudar de vez. A solução foi transformar o escritório definitivamente num dormitório”, conta.Acordar no meio da noite ou ter horários diferentes para levantar da cama no dia a dia também influenciam. Eliana Medina, 51 anos, diz que, em quartos separados, até a qualidade do sono é melhor. “Os nossos horários são diferentes. Eu trabalho com fotografia e, às vezes, preciso acordar às 4 da manhã. Aí é um que acende a luz, se mexe, o outro acorda… e acaba atrapalhando o sono do parceiro.” Eliana vive há três anos com Leandro, 60 anos. Para eles, a decisão também veio “meio que sem querer”. Como ainda estavam no começo do relacionamento, ela propôs que ficassem em quartos separados da casa, que antes era só dela. Leandro ocupou o quarto de hóspedes e assim ficou desde então.

O olhar imobiliário sobre o assunto

 

Em 32 anos de profissão, o arquiteto Harada fez apenas três projetos nesse perfil. “Não é comum. Mas solidifica a decisão de quem quer aproveitar seu espaço e ter mais conforto”, opina. Regina Adorno atendeu apenas dois casais. Viviane Bonino Ferracini, também arquiteta e designer de interiores, trabalha como consultora na loja de materiais de construção C&C de Jundiaí e atende, em média, cinco clientes por ano à procura de acabamentos para o quarto “do senhor” e “da senhora”. São poucos os projetos que saem das mesas dos profissionais. Mas como nem todo mundo contrata um arquiteto ou decorador para montar ou reformar a casa, a percepção é um pouco diferente sob o olhar imobiliário.João Batista Bonadio, consultor do Conselho Regional de Corretores de Imóveis de São Paulo (Creci-SP), estima que em pelo menos 10% dos apartamentos em São Paulo com duas suítes ou mais, os casais montem quartos individuais. “Sei disso pela experiência de venda de imóveis de terceiros”. Nos Estados Unidos, essa opção é bastante comum. A pesquisa “Casa do futuro”, feita pela Associação Nacional de Construtores de Casas (NAHB, na sigla em inglês) aponta que, até 2015, 62% dos lares de alto padrão terão duas suítes principais. No Brasil, a presença de dois quartos para o mesmo casal vem desde os anos 60 e a tendência, ainda que menos expressiva que nos EUA, foi acentuada pela caminhada em direção ao individualismo, com início nos anos 80, segundo a historiadora Mary Del Priore, especialista em História do Brasil. 

Evolução da privacidade

 

Mas, por que será que somos tão apegados à ideia do quarto de casal? Mary Del Priore explica que, no Brasil, o quarto foi uma conquista. “Por séculos, famílias inteiras dormiam num único cômodo, tendo esteiras e redes como cama. Até o século XIX, era comum, nas classes desfavorecidas, dormir em cima de bancos ou mesas, sem qualquer conforto. Com a abertura dos portos, depois da vinda da família real portuguesa, introduziu-se o mobiliário do quarto: cama, cômoda, criado-mudo – um luxo para poucos”. A partir daí, começaram a ser construídas casas com quartos para dormir e a noção de privacidade em casa foi evoluindo.Já a partir dos anos 60, casais que moravam em espaços amplos optavam por ter seu próprio quarto para preservar a intimidade e até a imagem, segundo Mary. “Muitas mulheres preferiam dormir longe dos maridos, por considerar que este afastamento valorizava o encontro sexual. O encontro da esposa em desalinho ou o marido “amassado” depois de uma noite de sono não era bem visto”. A partir dos anos 80, o motivo já era outro: “não mais por uma questão de estética, mas porque marido e mulher têm interesses diversos e escolhem o quarto como abrigo para desenvolvê-los”. Outro fator importante nesse processo foi a liberação sexual, “que quebrou a sacralidade do quarto como ‘altar da procriação’. Isso tudo deu ao quarto outras funções”, completa Mary. De fato, ao longo da História, estabeleceu-se uma relação muito estreita – e prática – entre a cama e o sexo. “Inicialmente, a cama era qualquer móvel onde as pessoas pudessem deitar. Com o tempo, ele foi se ampliando até chegar à cama de casal, no quarto do casal”, explica a psiquiatra Carmita Abdo. Mas com a obrigatoriedade de dormir junto se afrouxando, o quarto de casal perde – em tese – essa função primordial. “Os casais podem escolher quando e onde se encontrar”, completa Carmita.

Camas separadas

 

Mas só as camas. A ideia de conforto e privacidade é o que costuma reger a decisão dos casais, sejam eles jovens, iniciando a vida a dois, ou mais maduros, durante um casamento duradouro ou no início de um novo relacionamento. Quem escolhe ter seu espaço individual mesmo na condição de partilhar a vida com outra pessoa reconhece que um casal não precisa ser “dois em um”. Cada um tem seus gostos, hábitos e manias, e poder não incomodar o outro com essas diferenças pode ser bastante saudável. “Melhora até o relacionamento. Às vezes, você precisa ter na sua casa um lugar só seu. E o quarto é esse lugar. É o ambiente que eu criei para mim. Lá, tenho o meu livro, meu quadro, minha cortina de ‘mulherzinha’, as minhas bonecas de pano. É um todo meu. O resto, dividimos”, defende Eliana Medina. Mas nem todo mundo vê essa opção com o mesmo entusiasmo. “As pessoas, principalmente as mulheres, ficam surpresas. ‘Como assim ele tem o quarto DELE?!’”, conta Lena Mallon. O marido completa: “Elas confundem. Acham que, por dormirmos em quartos diferentes, não nos gostamos, não há amor. Desde o começo do relacionamento, dormimos em quartos separados. Acho que não podíamos começar uma vida juntos sem amor, não é?”. Para a psiquiatra Carmita Abdo, quartos independentes não é, necessariamente, um sinal de que o relacionamento está balançado, se o casal continua tendo uma vida sexual sadia e construindo projetos de vida juntos. “Desde que não seja uma fuga, eu não vejo problema. A casa toda continuará sendo compartilhada.” Durante a semana, Eliana e Leandro ficam cada um no seu canto. “Mas antes de dormir, tem que passar pra dar um beijinho, né?”. E, nos finais de semana, eles se encontram. O mesmo acontece com Dídimo e Lena. Eles continuam sendo um casal, mas que transforma o comum em algo diferenciado e valoriza o cuidar de si. Do “enfim, sós” para o “enfim, só”.

 

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