Elas não lembram em nada os tradicionais chalés de madeira vendidos em kits. Animados com sistemas construtivos industrializados, eficientes e prontos para montar na obra, arquitetos do mundo todo deixam sua assinatura em projetos inovadores, marcados pela tecnologia.
Por Marianne Wenzel e Rodolfo S. Filho
[img0]Parte da busca para tornar a habitação mais acessível, os sistemas construtivos pré-fabricados surgiram no início do século 20, seguindo o raciocínio que impulsionou as vendas e ampliou o alcance da indústria automobilística e de vestuário. “A padronização das peças e dos métodos permite produzir em larga escala e baixar os preços”, explica Rosana Folz, do Habis, grupo de pesquisa em habitação e sustentabilidade da Escola de Engenharia de São Carlos. A partir dessa ideia, os arquitetos se depararam com duas possibilidades: pensar a casa como uma unidade, variando modelos, ou projetar com componentes padronizados que possam se integrar de formas diferentes. Para quem vai construir, as vantagens da pré-fabricação são tentadoras: facilidade de transporte, rapidez na montagem e economia. Por que, então, ainda não conquistaram espaço no mercado nacional? Uma possível explicação é a depreciação do termo “pré-fabricado”, associado a chalés de madeira econômicos, porém conservadores, com pouca flexibilidade para alterações. As três casas desta reportagem subvertem essa lógica ao combinar a madeira com o steel frame ou empregá-la em painéis e em estruturas alveolares. Em alguns casos, é possível adaptar o tamanho da pré-fabricada de acordo com o crescimento da família.
O arquiteto gaúcho Luciano Andrades utilizou steel frame – armação metálica (Formac Brasil) fixada sobre uma base de concreto e fechada com painéis de OSB revestidos de lambris de pínus (Durapine) e chapas corrugadas (Eurotelhas).
Erguido em 17 semanas, o Refúgio São Chico é resultado de uma obra precisa.
Finalizada em 40 dias (20 na fábrica e 20 no local), a casa assinada pelo sueco Marten Claesson faz parte do empreendimento Arkitekthus, que comercializa 12 modelos pré-fabricados assinados por grandes arquitetos locais com o objetivo de melhorar a qualidade dessas construções.
Plus House, de Marten Claesson, na Suécia.
No sistema concebido pelo engenheiro Hélio Olga, da ITA Construtora, painéis alveolares feitos de ripas de cumaru são usados como elementos estruturais e de vedação. Ocas, as paredes (que podem ter até 3 x 3 m) embutem a fiação sem a necessidade de módulos especiais. Esta casa, projetada pela arquiteta paulista Cristina Xavier, ficou pronta em 40 dias.
Esta casa, em vila Taguaí, projetada pela arquiteta paulista Cristina Xavier, ficou pronta em 40 dias.
Embora não pareça, a estrutura da casa projetada pelo americano Daniel Libeskind é de madeira. Ela está envelopada em painéis de zinco (Rheinzink) – cuja cor o comprador pode escolher entre duas opções: grafite ou azul-acinzentado. Outros itens cambiáveis: o piso (tacos ou epóxi) e a cozinha (caso o morador queira, pode incluir o ambiente inteiramente desenhado pelo arquiteto e eleger o acabamento: aço inox ou pedra natural).
Pré-fabricação, portanto, nem sempre é sinônimo de custo baixo. Nesses tempos modernos, também não implica mais, necessariamente, a produção em massa. Que o diga o americano Daniel Libeskind, que emprestou seu traço a uma edição limitada de casas da empresa alemã proportion.
Para a estrutura desta casa, o arquiteto suíço Felix Oesch utilizou o sistema de concreto pré-moldado da marca alemã SysPro. Cada parede é um sanduíche de dois painéis de 4 a 6 cm de espessura, que chegam prontos à obra, já com espaços previstos para as instalações. O vão entre eles é então preenchido com concreto. “A produção é altamente automatizada. Os robôs interpretam as informações do projeto executivo. Além disso, como o enchimento acontece na obra, as peças são relativamente leves”, explica.
“Na Europa, onde a mão de obra custa mais que o material e os trabalhadores são imigrantes que mal dominam a língua do país onde vivem, a racionalização é bem-vinda porque reduz o tempo de construção e evita falhas de comunicação”, diz o arquiteto suíço Felix Oesch, adepto do concreto pré-moldado. Conhecido dos brasileiros, esse recurso pode associar-se a muitos materiais no fechamento das paredes, como isopor, concreto, drywall ou tijolo.