Numa propriedade árida do Algarve, esta casa branca e enigmática muda o cenário e instaura a arquitetura do português Ricardo Bak Gordon.
Por Joana L. Baracuhy Fotos: Leonardo Finotti Ilustrações: Fabio Flaks
À primeira vista a construção branca, de parede cega e esquadrias discretas, parece se furtar ao diálogo com a paisagem. Um exame mais detalhado atenua essa sensação: talvez ela seja apenas um pouco introspectiva. Verdade. Há terraços em todas as fachadas para onde se abrem as portas e janelas. São espaços de permeio entre interior e exterior, diz o português Ricardo Bak Gordon, autor do projeto um dos nomes mais destacados da arquitetura contemporânea do país. A decisão pelas aberturas parcimoniosas e estratégicas surgiu como resposta ao clima local e à condição do terreno: plano, rochoso, pontuado por oliveiras, sem grandes atrativos que não a massa de cactos definindo seus próprios limites.
Espécie de work in progress, o jardim da casa conserva a vegetação original intocada. O plano é que os próprios moradores se encarreguem de conceber e implantar o paisagismo nos próximos anos, lentamente.
Localizada no ponto mais elevado do lote, a construção dispensou cortes e aterros. Fica pousada no solo e conta com fundações rasas (sapatas corridas no perímetro da casa).
A piscina é um tanque de concreto pintado com tinta epóxi. O deck exibe acabamento de betonilha (argamassa própria para regularização e enchimento) rústica. Ao fundo, vê-se a barreira de cactos que delimita o terreno.
Este terraço tem jeito de pátio os outros são convencionais. Tudo por causa da cobertura, que, neste caso, deixa a parte interna (5 x 5 m) parcialmente aberta ao sol.
Apesar de as paredes formarem ângulos retos, os interiores assumem uma forma curiosa por causa da cobertura íngreme. É o caso da sala de estar, onde a laje de concreto aparente desenha um telhado com duas inclinações diferentes.
Na cozinha, impera a mesma praticidade do restante da casa. Há apenas estantes abertas e uma bancada central, feita de rocha artificial Swanstone. Repare no vão (à esq. na foto). Descendo por esta escada chega-se a uma cave.
Os quartos seguem a regra: as divisórias internas são todas de madeira pintada de tinta esmalte semibrilho, resgatando uma tradição do sul de Portugal. Ladrilho hidráulico (20 x 20 cm) amarelo, protegido com óleo de linhaça, forra toda a casa. Por baixo, um sistema de calefação aquece a moradia no inverno.
O rosa foi a cor que a atmosfera do lugar me inspirou. A casa é muito branca por fora, quase artificial. No interior, o rosa é uma espécie de buganvília da memória, diz Ricardo.
Brincalhão quando o assunto é perspectiva, o arquiteto criou um ponto de vista distorcido no terraço coberto por estrutura de ferro pintado e bambu pincelado com tinta branca bem diluída. As esquadrias são de pinho, também branco.
A casa ocupa o centro do lote e apresenta uma planta quadrada, repleta de soluções engenhosas. Os terraços em todas as laterais permitem aos moradores apanhar sol ou ficar à sombra, nasvárias épocas do ano.
Os ambientes são modulados (múltiplos de 5 m), recurso que simplifica a obra. Apenas as paredes externas são de alvenaria as internas foram erguidas com madeira. Outro destaque: os espaços integrados,mas aconchegantes e flexíveis.
Lisboeta do ano de 1967, Ricardo Bak Gordon é um dos nomes de maior consistência da nova geração da arquitetura portuguesa. Pensador inquieto, defende a disposição à experimentação, a flexibilidade dos espaços de morar e repudia o supérfluo. Discípulo de Álvaro Siza estrela máxima desse país e apreciador dos mestres Luis Barragán (1902-1988) e Herzog & De Meuron, é também um curioso da tradição moderna brasileira. Na qual julgo que a arquitetura pode atingir níveis elevados de poética com recursos simples e processos construtivos elementares diferentemente do que ocorre na Europa, onde os exercícios em torno das matérias de revestimento atingem graus de loucura e custos.