Quinze minutos separam o cais da praia Grande, no norte de Paraty, da ilha do Araújo, onde fica esta casa. Mas a pouca distância não ameniza a dificuldade para construir no lugar, um naco de terra de 1 km² cercado pelo mar calmo da região fluminense.
Por Eliana Medina e Rosele Martins Fotos: Carlos Piratininga Ilustrações: Fabio Flaks
A travessia de alguns materiais é complicada. Areia e pedras precisam ser ensacadas antes de subir ao barco, explica a arquiteta Iris Carneiro, gaúcha radicada na vizinha Ubatuba, no litoral de São Paulo. Nada disso, porém, assustou um paulista em busca de sossego, que encomendou à amiga Iris sua morada na ilha. Na lista de pedidos, simplicidade, área social ampla e espaço para guardar um barco. Todos atendidos no projeto de 131 m² finalizado em oito meses, três além do necessário para erguer uma casa semelhante no continente, avalia o empreiteiro: O transporte consome muito tempo. Embora o trajeto no mar seja curto, dá trabalho carregar e descarregar tudo, diz Marcos da Costa Monteiro Filho, há 30 anos tocando obras naquele pedaço. E se você está pensando em construir uma casa na praia veja também um projeto que foi feito para hospedar amigos e familiares e que também pode ser alugado quando estiver vazio.
Divulgação
A varanda percorre a fachada de uma extremidade a outra, oferecendo vista para a beira da praia. As toras roliças de eucalipto usadas como apoio para a cobertura viajaram 50 km da cidade paulista de Cunha até Paraty onde a equipe que cuidava das travessias descarregou a madeira, lançou-a ao mar, amarrou os troncos a um barco e os rebocou até a ilha.
O piso da sala e da cozinha intercala réguas de ipê (30 cm de largura cada uma) e de pau-marfim (5 cm), protegidas com cera incolor. Os vidros fixos vieram da demolição de uma antiga lanchonete paulistana.
Usar tijolos à vista foi um jeito de reduzir os fretes: a dispensa de reboco cortou pela metade a quantidade de areia e cimento necessários à construção das paredes. O tom rosado do rejunte é do saibro adicionado à argamassa. O paredão de 6 m de altura demarca a entrada da suíte, que fica no topo da escada, e do outro quarto.
A suíte, com mezanino. No banheiro, uma camada de verniz (Solgard, da International) afasta a umidade da bancada de peroba. Já as aberturas receberam stain transparente (Osmocolor, da Montana Química).
A decisão de elevar a construção 2,85 m acima do solo também ajuda a mantê-la sequinha e confortável termicamente. Os pilotis são de pedra moledo, abundante na região. O material está presente em muitos sobrados do centro histórico de Paraty, aponta Iris Carneiro. As telhas do tipo capa-e-canal (Madeireiro) chegaram à ilha trazidas de Ubatuba.
Efeito listrado
Visto de dentro, o telhado aparente forma listras. Elas são resultado do sistema de sustentação das telhas, baseado somente em caibros. O ganho estético, porém, pesa no bolso: consome quatro vezes mais madeira que o normal. O aumento ocorre porque a ausência de ripas (amparos dispostos horizontalmente) exige a colocação de caibros a cada 15 cm com o uso delas, o intervalo poderia ser de 60 cm. O desnível interno da casa (veja no corte) reflete a topografia do terreno.
O restante foi erguido sobre pilotis, liberando um grande vazio sob a sala e a varanda, o abrigo do barco. O estar dá acesso à suíte, um pavimento acima, e ao dormitório de hóspedes, no andar de baixo.