Reformada, casa de campo cresce e ganha vista da serra
Sob o signo da mudança: Carlos Bratke usa alumínio, madeira e vidro para ampliar refúgio em Campos do Jordão, SP
Por Deborah Apsan e Joana L. Baracuhy
Fotos: Cacá Bratke
Fotos dos edifícios: arquivo pessoal
Divulgação
Ampliar a casa de campo erguida há 16 anos foi a celebração de uma nova fase para o arquiteto paulista Carlos Bratke, filho de Oswaldo Bratke, pioneiro do movimento moderno paulista. Foram longos 17 meses da reforma que ampliou sua casa em Campos do Jordão, SP. Em busca de mais espaço e ambientes intimistas, ele escavou, aterrou, praticamente redesenhou o terreno para ganhar uma esplanada de onde aprecia, placidamente, a vista da serra. "A construção ocorreu durante meu primeiro casamento. Considerando que já estou no terceiro...", contabiliza, ao lembrar que a cabana original, de 100 m², foi erguida em 1991. Um poderoso muro de contenção fez aumentar a área aproveitável no terreno. Pedras da região, madeira aparente e cacos de cerâmica deram um ar aconchegante ao conjunto. Se você gostou da escada de madeira da foto, conheça nossa poderosa seleção de 28 escadas com madeira.
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O traçado geométrico e as cores vivas (telhas da Perfilor) são características da produção do arquiteto. A sala de estar cresceu com a nova cobertura de vidro, fixada em caixilhos de alumínio. O sol entra e aquece o interior; é delicioso no inverno, diz Bratke.
Uma intervenção pesada ampliou a sala de estar, que ganhou cobertura de vidro apoiada em tesouras de madeira iguais às existentes (em forma de triângulo). No arremate, portas pivotantes gigantescas (Jacqsa Comercial), de alumínio e vidro temperado.
A empreitada começou pela terraplanagem: o aumento do platô onde fica a casa e a escavação que abriu espaço a duas novas suítes marcadas pelas portas de correr de aço com venezianas amarelas (Serralheria Santo Expedito).
Nesta sala de estar (que foi preservada), as mudanças são transparentes. Os taquinhos de marfim demarcam os limites anteriores da casa. O terraço ia até a borda, onde agora existe um peitoril metálico não havia o andar de baixo. Outro segredo do arquiteto aparece aqui: as vigas não são maciças, mas compostas de três tábuas de muiracatiara pregadas, com pequenos calços entre si.
Uma nova cozinha, com ar levemente caipira, surgiu no andar de baixo. Tem bancada de ardósia e fogão a lenha. Funciona como aquecedor para toda a casa, diz Bratke. A porta grande premia os esforços para aproximar a paisagem.
Não bastasse a vista da sala, o arquiteto construiu um deque de madeira que avança sobre o penhasco. Na esplanada e nos interiores, o piso é de cacos cerâmicos envelhecidos (Lepri), à venda soltos ou em tela. Evita os recortes nos cantos, diz ele.
A suíte principal permaneceu tão calorosa e aconchegante quanto antes. Traz uma lareira e janela do tipo bay window. Dentro, o lambri de madeira segue coberto de verniz.
O terreno atual mede 10 mil m², soma de lotes comprados ao longo dos anos. No local exato da casa, a queda é de dramáticos 25 m vencidos pelo portentoso muro de pedras da região, chamadas de rachão. Longos pilares de eucalipto (tratados quimicamente) sustentam o deque.
Com a obra, o terreno ganhou um platô de 80 m² (o nível mais baixo na foto). Parte da velha construção, o bloco de tijolinhos, ao fundo, reúne um grande reservatório (na época, era comum faltar água), além de banheiros, lavanderia e cozinha para simplificar as instalações hidráulicas.
A construção original se resumia ao piso superior (com três quartos), o mezanino e a moradia do caseiro (inferior). A mudança começou por transferir as dependências do empregado para outro lugar e escavar o solo nesse nível para encaixar duas suítes e uma cozinha.
Em clima descontraído, e na companhia do cão Elvis, Cacá Bratke mostra ao pai as imagens que clicou da casa de campo (em breve, vão ilustrar um livro sobre a obra do arquiteto).
Carlos Bratke conta 66 anos e muita quilometragem na arquitetura. Foi presidente da Fundação Bienal de São Paulo e projetou quase 70 prédios na avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, artéria pulsante da capital paulista. 1. Lajes desencontradas marcam o edifício Oswaldo Bratke, um dos primeiros projetados por Carlos na avenida Berrini, nos anos 80. 2. Em forma de L, o Rodésia, também em São Paulo, garante sol a todos os apartamentos. Projeto de 1998. 3. No Equinox (de 1996), o destaque vai para as varandas de aramado amarelo recipiente para plantas em vasos e trepadeiras.
Além da bancada de ardósia, o banheiro traz cacos de cerâmica envelhecida (Lepri) nas paredes e forro de chapas de OSB. Comum em tapumes de obras, nesta casa o material recebeu uma camada de impermeabilizante incolor -- para manter aparentes as fibras de madeira. "Mas tem que ter cuidado na aplicação, porque o material pode absorver água e estufar", comenta Bratke.
Desenhada por Bratke, ela foi confeccionada pelo caseiro do refúgio, que é também carpinteiro. Repare nos grandes parafusos que garantem a estabilidade dos degraus e na delicadeza do guarda-corpo metálico -- detalhes como esses garantem a beleza do conjunto.
O acesso à construção ocorre pela fachada dos fundos, onde fica a porta principal. Feita de madeira com caixilhos quadriculados e vidro aramado (de segurança), ela segue inalterada.
Os pilares de tijolo que antes demarcavam os limites da construção foram mantidos. Para não destoar o arquiteto deixou todas as divisórias erguidas na reforma com aspecto semelhante: tijolo aparente. Apenas o rejunte, que antigamente era perfeitamente finalizado, ganhou aspecto mais rústico nas novas alvenarias. "Basta passar a colher de pedreiro para retirar o excesso de massa", ensina o arquiteto.
Dos quartos, enxerga-se um belo vale repleto de vegetação típica de montanha. Não há vizinhos muito próximos, o que garante aos proprietários um máximo de privacidade.
Pivotantes e enormes, essas esquadrias de alumínio empregam uma tecnologia usada na construção de edifícios, chamada glaze. As chapas de vidro são fixadas na estrutura de metal com o auxílio de uma espécie de fita dupla-face de silicone. Muito aderente, o sistema dispensa outras vedações.
Em busca de espaços singelos, quase bucólicos, o arquiteto projetou uma cozinha com materiais simples: cerâmicas, tijolo aparente e concreto à mostra compõem o ambiente.
A sala de jantar é o espaço em que melhor se enxergam as placas de OBS (aplicadas no piso, nas portas de correr e no forro). Aqui, também chama a atenção a parede de pedras brutas (ao fundo). Trata-se de uma divisória que esconde duas brocas da fundação que ficaram expostas com a escavação necessária à reforma.
A construção de linhas retas se destaca em meio a vegetação do lugar, mantida sem maiores interferências. Ali, há desde grandes araucárias (ao fundo), a arboretas em flor, fungos e líquens. "Os muros e paredes de pedra estão ficando mais bonitos e coloridos com o passar do tempo, com várias plantinhas preenchendo suas frestas", diz Bratke.
Essa foi a escolha do arquiteto para erguer todos os muros de contenção. A rocha, comprada nos arredores da casa é extremamente comum por ali, é barata e ainda evita maiores gastos com frete.