Escada redefiniu reformulação do dúplex paulistano
Reportagem: Ana Weiss (texto) e Eliana Medina (visual)
O casal queria um apartamento clean, minimalista. Mas, na bagagem, além dos muitos brinquedos de uma filha pequena, trazia centenas de objetos e livros, uma coleção bem-humorada de ícones do cinema, de arte e da própria infância que jogaria contra a sensação de amplitude e limpeza que ambos desejavam. Pode parecer improvável, mas a questão foi resolvida tirando partido da escada que liga os dois andares do dúplex – montada no centro da sala, ela substitui a antiga, que foi demolida. Na concepção dos arquitetos do escritório Triptyque, a nova peça, de chapas metálicas, serve de esqueleto a um espaço vertical que não só abriga o acervo dos moradores como deixa as áreas comuns livres, libertando o imóvel da sensação de confinamento que o fazia parecer pequeno. “Para sustentar o conjunto, abrimos a laje e construímos uma viga de reforço”, conta Carol Bueno, que assina o projeto. Módulos de marcenaria cercam o vão que surgiu nessa operação e ajudam a organizar o home theater e a adega, no primeiro andar. “Foi um incrível jogo de encaixe desenhar a estante ao redor da escada, espinha dorsal da proposta”, define Carol. Com uma base de aproximadamente 3 x 3 m, o móvel contorna a escadaria metálica, transformada, assim, num passeio museográfico pela história desta família paulistana.
Multifacetada como uma pedra lapidada, a ilha de concreto contém a pia, o fogão e o nicho para a lava-louças. Dela avança a mesa de jantar, uma prancha de 2,40 m completamente liberada do chão, presa apenas no corpo principal da bancada, cuja base larga suporta o prolongamento. O piso é de resina.
Integrada ao primeiro andar, a parte inferior do vão da escada dá origem à adega, separada da cozinha e da sala por uma porta-estante. Composta da mesma modulação do restante do grande móvel, ela fecha alternadamente o espaço de guardar vinhos e a própria escadaria.
Extensão da sala, a varanda teve piscina e churrasqueira originais demolidas. No lugar, protegida por uma cobertura retrátil, uma piscina retangular elevada por um deck escalonado divide a área com a nova churrasqueira. “Essa alteração abriu espaço às dependências de empregada”, diz Marcella Verardo, chefe de projeto do Triptyque Arquitetura.
Sempre seguindo a modulação, o vão da escada foi preenchido em todas as faces com nichos que acompanham um pilar preservado na reforma, escondido na parede da esquerda. Os degraus receberam pintura automotiva antiderrapante.
O percurso da escadaria de chapa metálica conta com iluminação de fitas de led, embutidas no encontro dos degraus com a estante. Acionado por sensor de movimento, o sistema evita que seja necessário acender todas as luzes para realizar pequenos trajetos durante a noite.
A banheira e a pia, desenhadas exclusivamente para este projeto, foram concretadas durante a obra. Ao redor delas, o piso de canela de demolição é protegido pela mesma resina branca usada na piscina da varanda.
O segundo andar da cobertura ficou com as áreas íntimas conectadas pelo piso de madeira e separadas por portas de correr. “Além do espaço do casal, desenhamos o quarto da criança e um espaço de brincar – que pode se converter em dormitório”, conta Carol Bueno.
Tudo gira em torno da escada: disfarçada pela estante, ela conecta os dois andares do dúplex sem interromper a visão geral do apartamento, graças aos finíssimos degraus de chapa metálica dobrada e soldada.
A suíte do casal, o quarto da criança, o espaço de brincar e o escritório foram separados por portas de correr que, quando abertas, se retraem, integrando os ambientes do segundo andar. “O projeto é como uma casa japonesa, um grande exercício de limpeza: tudo é embutido, milimetricamente encaixado. Aproveitamos cada centímetro”, afirma a arquiteta Carol Bueno. Caso do bloco formado por pia e banheira (ressaltado na planta). Área: 246 m² Ano do projeto: 2009 Conclusão da obra: 2010 Projeto: Carol Bueno e Marcella Verardo/Triptyque Arquitetura Projetos especiais de concreto: Onofre Móveis