O casarão é todo novo, mas traz com fidelidade as técnicas de construção colonial e clima de fazenda. Muito verde, quedas d'água e o mar podem ser vistos de suas janelas
Reportagem Ana Weiss (texto) | Design Leonardo Vaz | Fotos Nelson Kon | Ilustrações Campoy Estúdio
Desde que se conheceram, a arquiteta Eliana Castellari e o marido curtem viajar por cidades onde ainda se vê e se cultiva o legado colonial em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Há cerca de dez anos, voltando do Carnaval em Paraty, RJ, souberam de um sítio à venda. “Depois de passar por ali, decidimos construir nosso refúgio de fm de semana”, recorda ela, que vive em São José dos Campos, interior paulista.
Como surgiu este sítio
“Chegamos a ocupar por um tempo uma casa muito simples que havia no terreno. Mas a ideia era erguer um espaço com a nossa cara na porção mais alta do lote.” A arquiteta conta, porém, que se desconcertou quando o marido expressou a vontade de reproduzir o feitio dos tradicionais casarões paratienses. “Eu imaginava um projeto contemporâneo”, admite. “Quando encontrei o construtor e fui conversar com os trabalhadores locais, sobretudo os restauradores, entendi que meu desafo seria aproveitar a experiência única desses profssionais, que fazem um trabalho quase artístico, do frontão de pedra aos gradis de ferro recuperados. Me debrucei a estudar o desenho colonial de engenho e estou muito feliz com minha casa típica”, fala.
Nelson Kon
A experiência e a habilidade dos trabalhadores de Paraty encorajaram a arquiteta eliana Castellari a resgatar técnicas tradicionais para construirsua casa de campo neste sítio.
Confeccionadas por carpinteiros paratienses especializados em restauro, as portas e as janelas reutilizam ferragens de construções coloniais originais. As peças vieram de serralherias de Tiradentes, cidade mineira que também guarda uma grande herança desse período.
Fresca mesmo no verão, a casa tem o estar integrado à cozinha e a sala de jantar. “Costumamos acender a lareira e o fogão da cozinha caipira, na varanda,em todas as épocas do ano para aquecer os cômodos”, diz a arquiteta. Um artesão esculpiu o frontão de granito, pedra abundante na região.
Com faixas de 20 cm de largura, o teto de gesso pintado com tinta acrílica simula o forro saia e camisa, realizado normalmente com madeira. A paleta de cores do projeto explora, além do azul (a arquiteta não lembra a marca), o amarelo-ocre, frequente na arquitetura colonial. No piso, peroba-rosa de demolição.
No banheiro principal, o piso de ladrilhos hidráulicos (Dalle Piagge) e as paredes de azulejos convivem com a alvenaria pintada com tinta à base de cal, numa das poucas aparições do vermelho entre as cores escolhidas para o projeto.
Isolada do solo. O local escolhido para a implantação oferece a melhor das vistas que uma casa de campo pode almejar: muito verde, quedas-d’água e até o mar. Mas a umidade inerente à mata Atlântica pedia uma fundação reforçada. “isolamos a construção do chão com uma laje de 50 cm de espessura”,explica a arquiteta. diferentemente das feições da fachada, a distribuição não segue a arquitetura colonial, que previa banheiro e cozinha próximos,aproveitando o mesmo duto de água. “Hoje, isso é impensável”, completa. Área: 370 m2. Ano do projeto: 2008. Conclusão da obra: 2009. Projeto: Eliana Castellari execução: Sylvio Oliveira
Protegida pelos beirais de 80 cm, a varanda é um corredor voltado para o rio e para a mata, que o casal está repondo aos poucos no terreno, um antigo pasto.