Apartamento da década de 40 é minimalista e cheio de personalidade
Arte, design contemporâneo, peças étnicas, de época e artesanato brasileiro se combinam em um arranjo pleno de harmonia e personalidade neste apartamento da década de 1940, situado em uma área valorizada do centro de São Paulo.
Reportagem Visual Zizi Carderari Texto Silvia Avanzi Fotos Marco Antonio
Comprar um imóvel no edifício de 1949, na avenida São Luís, bem no centro de São Paulo, sempre foi o sonho da arquiteta e cientista paulistana Renata Piazzalunga. O desejo se justifica. O prédio está entre aqueles que fazem a fama da avenida como uma área de boa arquitetura modernista. "Passei um ano na expectativa, até conseguir este apartamento, de 190 m2", conta. Para adaptar os espaços a seu estilo de vida, Renata projetou uma reforma em parceria com o arquiteto Frederico Zanelato. Entre as mudanças, está a criação da biblioteca no lugar de um dos quartos. Em todos os ambientes, é possível identificar a personalidade da moradora. "A ambientação foi pautada no estilo minimalista. Mas não abri mão de referências importantes para mim, como peças de família e obras de arte", explica Renata. A ocupação dos espaços também expressa seu jeito de ser, prático e organizado. Dos quatro quartos originais do apartamento, Renata preservou um para ela e outro para hóspedes, integrou um à sala e transformou o último em um closet bem dimensionado. Se você gosta de prédios antigos, leia a reportagem sobre os edifícios cinquentões de São Paulo.
Casa Claudia
Para guardar jogos de taças e de copos, Renata desenhou esta cristaleira como um dos módulos do móvel multiúso da sala de jantar. A peça tem estrutura de MDF revestido de folhas de madeira e portas de vidro e foi fixada diretamente na parede.
O magenta da poltrona deu o tom a vários detalhes, como a mesinha da década de 1950 e as ondas no mural. Integrada ao estar, a sala de jantar acomoda mesa de vidro de Jacqueline Terpins e cadeiras de Fernando Jaeger. O sofá é da Dpot, e a luminária, da Reka. No piso, o taco original foi ebanizado e recebeu resina.
Desenhada por Renata, a estante, revestida de laminado fosco, exibe nichos de tamanhos variados. A escrivaninha é uma releitura dos modelos dos anos 1950, e a poltrona branca Pastil, de fibra de vidro, foi criada em 1967 por Eero Aarnio (ambas são da Desmobilia). No teto, o pendente veio da Lustres Yamamura. Feita sob medida, a porta-camarão com duas folhas combina ferro e vidro.
No banheiro, os módulos suspensos exibem portas de espelho e iluminação embutida. Placas de granilite revestem o piso e o deque acomoda a banheira. Um vidro leitoso, sobreposto à janela original e afastado da parede, garante ventilação e privacidade.
O grande mural de linhas gráficas (12 x 3 m), pintado na parede pelo artista plástico Carlos Rezende, traz pinceladas do mesmo rosa da poltrona de estimação de Renata, herança do avô. Um detalhe do móvel aparece em uma foto na placa de aço inox, que reproduz ainda um texto escrito pela moradora.
Na parede oposta aos armários com portas de espelho foi criado um grande nicho, cujo fundo recebeu uma pintura no tom de grafite. Coberta por uma placa de vidro, a área de apoio expõe fotos da avenida São Luís. Pontos de luz instalados no forro, rebaixado com gesso, destacam os quadros.
Revestida de espelho, a parede do hall reflete o mural. A máscara africana da etnia fang foi comprada no centro de São Paulo. Ao fundo, quatro mesas espelhadas (Estúdio Finest) ocupam o meio da sala. Com desenho da arquiteta, o banco acoplado ao espelho tem tampo e pés de vidro e é fixado nas laterais por meio de suportes metálicos. "Criei essa peça pensando também em usá-la como aparador", conta Renata. A almofada de xantungue foi feito sob medida pela Tsuruya No Futon.
Coautora do projeto de seu apartamento, Renata Piazzalunga é uma arquiteta que enveredou por outros caminhos. Hoje ela dirige a ONG Instituto de Pesquisas em Tecnologia e Inovação (IPTI), que criou o programa Cultura em Foco. "O projeto visa a inclusão socioeconômica de comunidades com base na economia criativa", diz. O jogo americano, desenvolvido por Kelley White e feito por artesãos de Sergipe, e a manta de fuxico, com padronagem do estúdio Nada Se Leva, são exemplos de produtos gerados pelo programa.
Há alguns anos, Renata viajou para a Turquia e de lá trouxe a manta e as almofadas de seda bordadas. "Quando comprei estas peças, nem imaginava como iria usá-las em minha casa, mas gostei tanto do conjunto que incluí na bagagem. Agora, parece que elas foram feitas especialmente para o quarto", avalia. Segundo a arquiteta, cobrir a parede e o piso de preto criou uma base neutra que permite o uso de detalhes marcantes, como o cocar, presenteado por um aluno. A luminária é da Reka.
O pufe, da Dpot, marca o limite entre as salas de estar e jantar. Junto à parede, a marcenaria desenhada por Renata inclui aparador e, sob ele, louceiro suspenso. No alto, fica a prateleira para vasos e, à esquerda, a porta oculta a adega. No teto, nichos de gesso embutem a iluminação. Na página ao lado, a cozinha pode ser isolada por meio de portas de correr de vidro.