À prova do tempo: neste refúgio no litoral norte de São Paulo, a varanda envidraçada ganhou proteção de uma ampla cobertura. A vista do morro e a insolação na medida fazem do lugar o coração da casa. Alternando os espaços fechados com os transparentes, o projeto brinca de esconder e revelar.
Por Eliana Medina e Joana L. Baracuhy
Fotos: Victor Affaro
O arquiteto paulista Gui Mattos conhece a fundo esta praia no litoral norte de São Paulo. Morei nela nove anos. Nesse período, aprendi a trabalhar a madeira e a construir com ela, conta. Esse saber se provou valioso quando Gui foi chamado por um jovem profissional liberal, em 1999, para projetar sua casa de fim de semana. Queria uma atmosfera de varanda, um clima bem praiano, revela o arquiteto, referindo-se à grande cobertura de uma água que, em grande medida, define a construção. Porém, entre o detalhamento das plantas até o início da obra, transcorreram quase dois anos, tempo suficiente para o proprietário se casar e ter um filho. A nova fase exigiria alterações no projeto e a arquiteta paulista Fabiana Avanzi ficou encarregada dessas adequações. Ela propôs remodelar a cozinha, fazer do espelho-dágua um depósito de pranchas e transformar a varanda do andar superior no quarto do bebê. Hoje, os donos comemoram o refúgio pronto, de 260 m². Não temos trabalho com manutenção, diz a proprietária. Para ajudá-lo a também realizar esse sonho, selecionamos outras 27 fachadas de casas de praia em todos os estilos.
Divulgação
Pensei em erguer um bloco mais alto ao sul do terreno para barrar o vento frio e resguardar a área social, voltada para a face norte, a mais ensolarada, resume o arquiteto a respeito do projeto. Na varanda, mesmo se fechadas, as portas de vidro temperado e madeira mantêm a transparência. Elas correm sobre trilhos e contam com guias fixadas no alto (na travessa de madeira que corta a sala de estar). Vigas de maçaranduba (em vez de tesouras) sustentam a cobertura. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
A fachada principal é reservada, pois a rua tem um fluxo razoável de gente e de carros. A rampa de acesso evidencia o caixão perdido: a casa fica sobre um espaço oco de 1 m de altura que evita a subida da umidade pelo piso e pelas paredes. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
A sala de estar conta com uma lareira ao lado há um canto para relaxar forrado de tatames (Futon Company). Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
Informal por opção, a sala de jantar fica na varanda. Ali, o piso emprega as mesmas réguas de ipê usadas no assoalho da sala, mas com brechas entre elas para escoar a água da chuva. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
Na versão final, a cozinha fica separada da sala, e dispõe de mais espaço e de lugar para guardar apetrechos. Crianças têm horários próprios. Eu precisava de uma copinha, conta a dona da casa. Todos os armários levam portas feitas com tela solar (trama de fibra de vidro e PVC, da Luxaflex, comumente usadas em cortinas). Ajudam a ventilar e afastar o mofo, diz a arquiteta. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
O mesmo arenito vermelho usado no piso da cozinha forra o banheiro do casal. É antiderrapante e não tem aquele toque gelado, diz a proprietária. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
Imagine alguém descansando, à tarde, num ambiente diante do jardim. Tem privacidade, luz, e ainda vê uma nesga da paisagem, fala o arquiteto Gui Mattos. Localizada no andar de cima, o terraço da suíte do casal oferece a vista da mata nos fundos do lote. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
No refúgio de concreto e alvenaria, os quartos são fechados por grandes painéis de correr com venezianas (para ventilar melhor). Feitas pela marcenaria de Zeca Cury, em Ubatuba, SP, essas esquadrias têm portinholas no alto. Projeto de Gui Mattos e interiores de Fabiana Avanzi.
A planta em L deixa um grande espaço livre no centro do terreno para o qual se voltam os ambientes sociais e os quartos. A vista do morro e a insolação na medida fazem do lugar o coração da casa. Num lote sombreado, cada raio de sol é bem-vindo, diz Gui Mattos. É por ali que a luz da tarde, filtrada pelas árvores, entra na casa. Do outro lado, diante da rua, a claridade da manhã penetra por aberturas envidraçadas no alto das paredes. Essa luminosidade foi viabilizada pela cobertura de uma água. Também não cabia um telhado recortado, pois chove muito neste trecho do litoral.