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Dom Laurence Freeman: monge ensina a ter um ano tranquilo

O monge beneditino dom Laurence Freeman nos ensina como alimentar o espírito no cotidiano. É assim que revolucionamos nossa vida

*Matéria publicada em Bons Fluidos #166 – Janeiro de 2013

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Chegamos ao fim do ano exaustos. Muito trabalho, pouco tempo para tantas atividades e compromissos, energia completamente esgotada. Esse é o retrato da maioria de nós, que, ainda assim, precisa se recuperar rapidamente para ganhar força suficiente para começar um novo ciclo com disposição. Por isso, o diretor-presidente da Comunidade Mundial de Meditação Cristã, dom Laurence Freeman, monge beneditino inglês que há 20 anos dá retiros no Brasil, sugere um balanço e uma autoavaliação entre o final de 2012 e o começo de 2013. E, depois dessa reflexão, uma lista de ações que possam mudar nossa existência de uma maneira mais essencial e profunda na direção de uma maior realização emocional e espiritual. Acompanhe aqui o que ele nos tem a dizer. E no final da entrevista, saiba como é a meditação na tradição cristã.

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BONS FLUIDOS: O que mais nos esgota na vida moderna? O que nos falta para ganhar mais força e energia para enfrentar um novo ano com disposição?

DOM LAURENCE FREEMAN: O que mais falta ao ser humano hoje em dia é o silêncio. Temos uma vida agitada demais, ruidosa demais, movimentada demais. Não paramos nunca, não conseguimos ficar quietos e temos dificuldades em deter esse fluxo ininterrupto de atividades. É assim que nos esgotamos tão rapidamente. Não percebemos que perdemos a experiência do silêncio, e que isso é vital para a nossa vida emocional e espiritual. Então, a primeira coisa a fazer é conseguir abrir um espaço de paz e calma em nossa vida. Isso nos alimenta e reequilibra.

 

BF: E como conseguir fazer isso?

DLF: O caminho mais fácil para é reservar 30 minutos para a meditação diariamente. Pode ser de manhã ou à noite, uma ou duas vezes por dia. É o suficiente. Porém, como é desafiante manter essa disciplina sozinho, sugiro que a pessoa se conecte a um grupo de meditação e se reúna com ele pelo menos uma vez por semana. O grupo nos ajuda a manter a disciplina. E ali também poderemos encontrar novos amigos e momentos de alegria. A amizade profunda é outra coisa que falta no mundo de hoje.

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BF: O que mais alimentaria nossa força espiritual durante o ano que se inicia?

DLF: Sugiro acrescentar mais dois momentos importantes nos próximos 12 meses: um retiro espiritual, de uma semana a 15 dias e uma peregrinação a um lugar sagrado. O retiro nos faz alcançar profundidade muito mais rápido e nos traz inúmeros benefícios. Uma viagem espiritual para um destino associado à paz, ao silêncio e à natureza, enfim, um lugar sagrado, também pode nos dar poderosos insights de compreensão. Me lembro do dalai-lama dizer que fez uma visita a Lourdes, e que de numa manhã cedinho foi para a gruta, onde teve uma poderosa experiência espiritual. Uma peregrinação é,simbolicamente, uma viagem interior da alma. E é uma grande alavanca para o espírito.

 

BF: O começo do ano é geralmente dedicado a momentos de purificação e desintoxicação. Como podemos iniciar esse período de uma forma mais espiritual?

DLF: Podemos começar com um balanço pessoal, uma autoavaliação, que pode ser feita, por exemplo, na tarde do primeiro dia do ano, ou em algum dia durante o mês de janeiro. Vamos reservar esse período só para nós, sem a interferência de elementos externos como TV, internet ou telefone. A ideia é colocar no papel como avaliamos nossa vida no momento atual. Poderemos listar algumas áreas, como família, amigos, trabalho, lazer ou prática espiritual, e ver se estão recebendo a devida atenção. É importante registrar essas reflexões, não só pensar a respeito. Na verdade, o que vai ser revelado é a maneira como organizamos nosso tempo e quais são nossas prioridades. Com isso, podemos diagnosticar sérios desequilíbrios e assim corrigir a rota, escolhendo outras prioridades. Isso permite fazer uma lista com as ações a realizar, e não só um apanhado de desejos descompromissados.

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BF: A confissão é outro modo de purificar-se, segundo a Igreja Católica. Como isso pode ser feito? Qual a diferença entre o arrependimento e a culpa?

DLF: Boa pergunta. Confessamos quando percebemos que agimos de uma maneira que consideramos errada. A partir disso, podemos nos arrepender, e isso é importante. A palavra grega para arrependimento é metanoia, mudança de pensamento, ou de direção. É a palavra que Jesus usava. Erramos e, com base nessa consciência, mudamos de rumo para não repetir mais esse erro. Sem culpas. Isso é o mais saudável. A culpa nos prende ao passado, nos escraviza, e não nos leva a nada de bom. Ela está na origem de muitas doenças mentais, inclusive. Na verdade, a culpa e o perfeccionismo são as duas maiores doenças da alma. Precisamos entender que não somos perfeitos, que erramos, que podemos nos arrepender e que podemos mudar de caminho. Mas é só isso. Não precisamos nos deixar aprisionar pela culpa. Hoje, dentro da Igreja Católica, se fazem confissões em grupo, comunitárias. Isso é muito bom, não estamos assim na solidão neurótica do ego, mas numa comunidade que tem uma humanidade em comum e que vai refletir sobre ela. Confessar não é apenas fazer uma listinha de pecados, pedir perdão ao sacerdote e ir pecar de novo. Hoje em dia, a terapia e o aconselhamento espiritual também nos ajudam a compreender por que escolhemos determinado caminho e como podemos mudá-lo. A confissão é um sacramento, e eu acredito nisso. Mas temos de entender melhor o que ela significa.

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BF: Estar sempre no papel de vítima também nos aprisiona?

DLF: Sim. A vítima não faz nada para ultrapassar a realidade em que se sentiu como vítima, e se acomoda nesse papel imobilizante. Para acabar com esse círculo de sofrimento, é preciso ultrapassar o passado, mudar o olhar para vida e saber perdoar. Não é esquecer, mas perdoar.

 

BF: E o que é perdoar realmente? Compreender o motivo por que alguém fez determinada ação contra nós?

DLF: Não. Compreender ainda está dentro da esfera mental. E para perdoar verdadeiramente temos de estar inteiros, com coração, mente e espírito. É algo mais profundo e abarcante, que toma conta de todo o ser. O perdão é integral.

 

BF: Em resumo, manter uma prática espiritual cotidiana, estar com o coração aliviado pelo perdão e livre de culpas e acusações desnecessárias nos ajuda a começar o ano de uma força mais positiva?

DLF: Meditar é revolucionário. Todo nosso olhar para a vida muda. É a maneira mais fácil, simples e barata de começar e terminar o ano com mais força, coragem, alegria e serenidade. O resto pode vir como acréscimo.

 

Como meditar dentro da tradição cristã

Sente-se de uma maneira confortável, com a coluna ereta e procure permanecer imóvel. Feche levemente os olhos. Fique relaxado, mas atento. Em silêncio, comece a repetir interiormente uma única palavra, a palavra-oração Maranatha (que quer dizer Vinde, ó Senhor). Recite-a calmamente em quatro sílabas de igual duração (ma-ra-na-tha). Escute continuamente o som da palavra à medida em que o pronuncia. Tente não pensar, nem imaginar nada, nem de ordem espiritual, nem de qualquer outra ordem. Pensamentos e imagens provavelmente virão à mente, mas, deixe-os passar.  Simplesmente retorne a atenção à repetição da palavra Maranatha, do início ao fim de sua meditação. Depois de meia hora, abra os olhos com suavidade. 

 

Um pouco mais sobre a trajetória de Dom Laurence Freeman

Os gestos tranquilos, o olhar transparente e a voz firme e suave mostram um homem em paz consigo mesmo. O inglês Laurence Freeman, 61 anos, hoje um monge da ordem dos beneditinos, estudou Literatura Inglesa na Universidade de Oxford e foi jornalista especializado em assuntos internacionais quando jovem na Inglaterra. Porém, ao encontrar com o seu mestre espiritual, o monge e ex-diplomata inglês John Main, sua vida mudou para sempre. Com ele, o jovem Laurence passou a meditar como os antigos padres do deserto, eremitas que viveram cerca de 300 a 400 anos depois de Cristo nas areias do deserto de Nítria, no Egito. Essa tradição contemplativa foi redescoberta e recuperada pelo seu mestre, que procurava dentro da tradição cristã uma prática espiritual equivalente à meditação feita nos países do Oriente. John Main serviu como diplomata durante vários anos em países asiáticos e tinha certeza que no cristianismo primitivo haviam práticas contemplativas semelhantes à meditação praticada em religiões orientais, especialmente o budismo. Hoje, a Comunidade Mundial de Meditação Cristã, criada por dom Laurence em 1980, já existe em mais de 100 países. Atualmente, a entidade também mantém grupos que ensinam meditação para crianças e estudantes. Dom Laurence tem uma forte atividade ecumênica com diferentes grupos religiosos e se reúne em encontros especiais com Sua Santidade, o dalai-lama (sobre ele, escreveu o livro O dalai-lama fala de Jesus). É um homem abrasado pelo amor a Deus, e um grande exemplo de bondade amorosa dedicada aos seres humanos.

*Matéria publicada em Bons Fluidos #166 – Janeiro de 2013

 

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