Arquitetura & Construção
 
 
 
 









 
Edição de outubro de 2004
Receita de cozinha

Assim como fazer um bolo, projetar uma cozinha também tem seus segredos. O arquiteto assume o papel de chef, mas é você quem decide o tamanho da receita (ou do ambiente): ela servirá para uma pessoa, para os amigos ou para toda a família? Esse é o momento de evitar que a massa queime no fundo da fôrma: já pensou em viver topando com bancadas ou caminhar metros para aquecer o congelado no forno? "Pense num fluxo livre ­ pegar o alimento na geladeira, levar à pia, temperar e cozinhar", aconselha a arquiteta paulista Consuelo Jorge. Outra dica de um bom preparo: coloque a cozinha junto dos ambientes afins. "Para que ela seja funcional, é preciso estar ligada à sala de jantar e perto da lavanderia, por onde entram as compras e sai o lixo", sugere Consuelo. Acrescente a isso a necessária circulação de ar. "A ventilação cruzada, com portas ou janelas em lados opostos, refresca a cozinha, e a coifa retém a gordura", explica o arquiteto Mario Santos, do Rio de Janeiro. Pronto! É hora da cobertura, digo, dos acabamentos, e de se deliciar.

Enquanto prepara deliciosos pratos, a moradora conversa com os amigos. A mesma bancada serve de apoio na hora de um lanche rápido. Para quebrar o estigma das cozinhas brancas, a parede maior recebeu mosaico de vidro (Vidrotil, ref. 3950). No centro do armário (Formaplas), nicho para objetos. Iluminação da Wall Lamps, coifa da Pulsar e objetos da Benedixt. No piso e na bancada, granito branco itaúnas (Glass e Cia).

Bons exemplos de distribuição
Este projeto de Mario Santos e Eliane Amarante Arquitetura dá livre acesso a todas as áreas da cozinha. "Nada de andar esbarrando em movéis", diz o profissional. Outro recurso que facilitou o dia-a-dia foi apostar em duplas. Cubas lado a lado separam louças de verduras. Carnes e doces ficam em geladeiras diferentes para não misturar cheiros.

Num lado da planta fica a copa com mesa e quatro cadeiras. No outro, estão pia, fogão e geladeira, formando uma distribuição em triângulo. "Unir os três serviços faz as pessoas andarem menos", diz a arquiteta paulista Marta Sá Oliveira, autora do projeto (foto) com Mara Chap Chap e Ni Barros Barreto. Portas em paredes opostas ajudam na ventilação.
 
Túnel do tempo
"A cozinha é um dos ambientes da casa que mais evoluem. É o lugar onde as pessoas se permitem ousar", diz o arquiteto paulista Marcelo Rosenbaum. Ela reflete rapidamente as mudanças de comportamento. "Hoje, as pessoas querem transformar o trabalho repetitivo num momento de lazer", conta Marcelo Tramontano, coordenador do Núcleo de Estudos sobre Habitação e Modos de Vida da Universidade de São Paulo (Nomads). Anos 60 e 70: predominavam o humor e as cores quentes, como amarelo, vermelho e laranja. Os azulejos com desenhos de flores, a fórmica vermelha e os fornos de parede estavam no auge. Anos 80: foi a vez dos elementos brutos, do cimento à madeira, representada pelo mogno. Tijolos e instalações aparentes surgem para valorizar a arquitetura. Na foto, projeto de Claudio Bernardes e Paulo Jacobsen. Anos 90: sucesso das cozinhas brancas e das americanas. A preocupação com a praticidade abriu espaço para a chegada de materiais como o aço inox. Na foto, projeto de Miguel Thomé e Ana Cruz.

E no futuro?
"As novas tecnologias permitirão, entre outras coisas, criar utensílios inteligentes que mostram a temperatura ideal para preparar um doce, peças que não quebram ao cair no chão e até imagens projetadas que estabelecem interação com o usuário", idealiza Ted Selker, pesquisador do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, ou MIT. Já imaginou o preço de tudo isso? "Ele está relacionado ao valor que a tecnologia tem para as pessoas, que historicamente sempre foi cara", diz.

[img2][img3][img4]

Qual é o segredo da cozinha funcional?
Ela deve dispor de temperos sempre à vista, gavetas fáceis de puxar e com divisão de talheres. Gosto das cubas profundas, que não espirram água para os lados e têm lugar para pratos e panelas. Dependendo do espaço, use duas cubas, uma para as peças maiores e outra para os pratos de sobremesa. Uma torneira com água quente ajuda na limpeza da gordura. Instale tomadas suficientes para os eletrodomésticos.

Como planejar a bancada?
O ideal é que ela tenha uma mesa de apoio para quem gosta de fazer bolos e pães. Essa mesma área pode ser usada no café da manhã. Cuidado com a escolha do revestimento, pois abrir a massa numa bancada vermelha pode cansar a vista. Algumas pessoas têm preconceito contra o mármore, no entanto é o melhor material para abrir uma massa de empada ou de torta. Eu compreendo que ele manche com limão, mas até disso eu gosto. É como apreciar as rugas de uma mulher que está envelhecendo.

Como você vê o uso da tecnologia?
As pessoas precisam conhecer melhor o que têm em mãos. Algumas não sabem que o forno tem a função grill. Eu tenho diversos eletrodomésticos em casa, microondas, processador e máquinas de fazer empadas e waffle. Meu forno italiano e minha batedeira são meus diamantes.

[img5]
 
Deu branco nas combinações de piso e parede sugeridas por três arquitetos. "As cores vão bem em detalhes de armários ou em meia-parede", fala Ana Cristina Malta, de São Paulo, que propôs laminado e porcelanato (1). Ao revestir o chão de madeira (2), atenção: "Não é recomendável para lugares onde se faça muita fritura. Na limpeza, use pano úmido e evite produtos químicos", orienta Carla Pontes, de São Paulo. Uma passadeira de pastilhas ao redor da pia protege dos respingos. Ainda assim prefira espécies de menor absorção de água, como cumaru, jatobá e sucupira. Resinas impermeabilizantes aumentam a durabilidade do material. O carioca Mário Santos misturou revestimentos claros nas duas superfícies (3). "Usaria o mesmo granito do piso na bancada", sugere.
 
[img6][img7][img8]
[img9][img10]
 
De olho na bancada
Granito: com pouca porosidade, resistência e facilidade de manutenção, ele continua em alta. Para tornar o material imune a manchas, existem hidrorrepelentes para pedras, à venda em casas especializadas. Aço inox: uma única peça reúne tampo, cuba e frontão ­ sem as emendas, que acumulam sujeira. Outro atrativo é a opção de acessórios acoplados, como escorredor. Com o uso, podem surgir riscos. "Prefira o acabamento escovado para driblar o efeito da abrasão", diz Wilson Chica, gerente de marketing da Mekal. Limpe com água morna e sabão neutro e evite abrasivos. Sintéticos: nessa família aparecem as superfícies sólidas minerais (SSM), de minerais naturais, acrílicos e pigmentos coloridos. Chamadas Corian (DuPont), Hi-Macs (LG Chem) e Surell (Pertech), elas têm pouca porosidade, além da infinidade de cores. "Se riscarem, é só passar o lado abrasivo de uma esponja com água e sabão", conta Claudia Rampazzo, da Serplac, empresa paulista que trabalha com as três marcas. Outro integrante dessa lista é o granito sintético, que imita pedras naturais e custa pouco. Há também os aglomerados de pedras, que misturam resina polimérica a pó de mármore (Quarella, Marmol-Compac, Rover e Santa Margherita) ou a quartzo (Silestone e Silgranit). Resistentes e de baixa absorção, não riscam, mas exigem instalação especializada.
 
[img11][img12][img13]
[img14][img15][img16]
[img17][img18]
 
Equipamentos de alta tecnologia são assunto do projeto, sim. É hora de decidir se vai querer um fogão como o Unique 6th Sense, da Brastemp, cujo controle de temperatura regula a intensidade das chamas e avisa quando o forno está quente. Mede 91 x 60 cm e custa cerca de R$ 2 mil. Respeito ao meio ambiente? Exemplo dessa tendência é o refrigerador KSV 43 (1,70 x 0,70 m), da Bosch. Gases poluentes, como CFC, HCFC ou HFC, foram trocados pelo isobutano, que não prejudica a camada de ozônio e economiza luz. Preço médio: R$ 1,6 mil. Planejada para pequenos espaços, a bancada de inox Tramontina tem cuba, escorredor e cooktop em 1,20 x 0, 55 m ­ nas lojas em dezembro.
 
[img19][img20][img21]
[img22]
 
O que vem por aí
Na mostra Casa Cor São Paulo, que vai até 2 de novembro, a cozinha se destaca pelo tom berinjela nas paredes e vidro no piso (placas rejuntadas com silicone e assentadas com fita autocolante). "É um material fácil de manter, que quebra a tradição das cerâmicas", diz o arquiteto Nelson Lojo, autor da idéia acima. O ambiente também privilegia a convivência: junto da bancada com cooktop, o cozinheiro recebe as visitas e prepara as refeições. Destaques: a bancada de inox (Mekal) tem pontos em alto-relevo que apóiam panelas e evitam riscos. A coifa (Brastemp) é acionada pelo calor do fogão, e um timer, acoplado à tomada, liga a cafeteira na hora certa. O detector de gás (Vimar) dispara um alarme em caso de vazamento. Ligado à internet, ele avisa o morador por e-mail. Pastilhas da Gyotoku, tinta da Suvinil (ref. N146) e vidro temperado da União Brasileira de Vidros (UBV).

Em que momento entra a iluminação?
Ela deve anteceder o projeto elétrico, pois não é possível criá-lo sem saber que lâmpada você vai usar. A luminária determinará como serão as instalações do ambiente, e não o contrário.

Como comprar luminárias?
Elas precisam ser simples de manter, facilmente retiráveis do teto para lavar. Prefira as peças embutidas ou rentes ao forro, assim a sujeira não acumula nas frestas. Os materiais mais recomendados são ferro tratado, alumínio e aço inox, todos com vidro resistente à gordura. Também é preciso estanquidade.

Que lâmpadas economizam energia?
Além do consumo, considere o fluxo luminoso. À primeira vista uma lâmpada incandescente convencional de 40 w parece mais econômica do que uma dicróica de 50 w. Pelo contrário, ela tem baixo fluxo luminoso e exigirá mais lâmpadas para alcançar o mesmo resultado. Vale lembrar que as dicróicas têm melhor reprodução de cores.

[img23][img24][img25]
 
Acerte na coifa
O projeto define antes quais serão as dimensões do duto. Para ter uma idéia, se ele tiver saída de 7 polegadas ou 2,30 x 1,60 m, servirá a uma coifa com alto poder de exaustão (em média 1,6 mil m3/h). Quanto à coifa, cozinhas sujeitas a fritura constante ou com dutos longos pedem um motor potente. "Peça ao fabricante um documento que garanta a vazão da coifa", alerta Alexandre Serai, diretor comercial da empresa paulista Tuboar. Confira ainda o nível de ruído e a garantia.
 
[img26][img27][img28]
[img29][img30]
Reportagem:
Cristina Bava e Márcia Carini
Fotos:
Luis Gomes