JAIME INOVADOR

Por Roberto José da Silva e Vera Barrero

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O arquiteto Jaime Lerner passeava outro dia em Curitiba com seu neto Ben, de 7 anos. De repente, atrapalhou-se no caminho e revelou ao menino que estava perdido. Esperto, Ben estocou: “Puxa, vô, o senhor conhece todas as cidades do mundo e se perde na sua!” A história, contada por Lerner para ilustrar a perspicácia do garoto, mostra também o crescimento de Curitiba. Na época em que Lerner se elegeu prefeito, em 1971, ela tinha três vezes menos habitantes do que o 1,8 milhão atual. Hoje, é a capital brasileira com maior número de automóveis por morador. Poderia ser uma catástrofe social e urbanística, mas está longe disso. Os números mostram por que a capital paranaense é um caso raro dentro do país e atrai os olhares de arquitetos e urbanistas de todo lugar: taxa de alfabetização de 96% a partir de 10 anos de idade e luz e água corrente em 99,5% das casas. Há cerca de 54 m2 de áreas verdes públicas por habitante, segundo dados do Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano (IPPUC), que trabalha com o dado da OrganizaçãoMundial da Saúde (OMS) de 12 m2 no mínimo. O avô de Ben liderou as intervenções urbanas que geraram esse milagre. À frente da prefeitura por três vezes (e do governo do Paraná por duas), concebeu ambiciosos planos para sua cidade natal, levados à frente por seus sucessores: “Ele é o oxigênio de Curitiba. Tudo o que se vê e respira aqui tem um ar de Jaime Lerner”, define o arquiteto e urbanista Luiz Masaru Hayakawa, parceiro em vários projetos. “Tem uma visão antecipada das questões físicas e estruturais do crescimento urbano, mas também possui um ‘sétimo sentido’ para enxergar as necessidades sociais e expor a importância da memória cultural, natural e ambiental de um povo e uma cidade”, completa Luiz Hayakawa.



O passo primordial dessa revolução foi o projeto para o setor estrutural, implementado no primeiro mandato de Lerner, na década de 70. Em 1966, ele já havia participado do desenvolvimento das diretrizes do Plano Diretor de Curitiba, que criou as bases para essa reforma: “Na época, estavam alargando as ruas no centro e destruindo a história”, lembra. “Nos movimentamos para evitar que isso fosse feito sem um plano.” Ao assumir a prefeitura, Lerner e sua equipe puseram em prática um desenho urbano inovador, que evitava o crescimento desordenado da cidade e combatia a saturação de sua área central. Entre as ações, estava o incentivo ao transporte público de massa. Um sistema chamado trinário separou em três vias paralelas a circulação de ônibus expressos, tráfego local e trânsito de longa distância. Para recuperar o centro histórico, a tática foi afastar dali os automóveis e dar lugar às pessoas – assim nasceu o primeiro calçadão do Brasil, na rua das Flores. A ação enfrentou a crítica dos comerciantes, que temiam o declínio do movimento, mas a prefeitura efetivou a mudança em 72 horas, driblando a oposição. Deu certo: lugar dos mais freqüentados hoje pelos curitibanos e turistas, mistura lazer e serviço em meio ao casario antigo bem conservado. O projeto Câmbio Verde, de 1989, atestou a sensibilidade de Lerner para a questão social. Num momento de excesso de produção de hortigranjeiros, os agricultores da região metropolitana protestaram contra o baixo preço jogando comida fora. O prefeito comprou a produção excedente e a distribuiu às famílias carentes de favelas e assentamentos precários – em troca apenas de sacos de lixo reciclável. Como reconhecimento de suas obras, o arquiteto recebeu em 1990 o Prêmio Máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente: “Sem querer ser cabotino, acho que Curitiba apresenta o maior número de transformações positivas que aconteceram numa cidade. É uma referência no mundo todo”, diz Lerner. “As transformações continuam, e esse desafio de inovação constante ninguém pode ignorar.” Oscar Niemeyer escreveu que a intuição está na base das modificações urbanísticas empreendidas pelo ex-prefeito. Lerner pondera: “Existe intuição, mas existe outra coisa. Não creio em inspiração. Quando você fica esperando uma idéia, o que falta é dado”. E arremata: “A criatividade é uma arte de relacionar. Se tenho mais dados para relacionar, minha intuição aumenta”. Para obter esse caldeirão de dados, ele vive intensamente a cidade, anda pelas ruas, conversa com as pessoas. “Devemos prestar atenção no que a cidade diz.” Aos 69 anos (70 em dezembro), ele tem pela frente uma agenda extensa: “Em Brasília faremos uma intervenção, com algumas acupunturas, especialmente fora do plano piloto. Faz parte da celebração em 2010 dos 50 anos da capital federal”, diz. “No Rio, estamos revendo o sistema de transporte. Em São Paulo, uma operação privada deve revitalizar a Cracolândia, no centro.” Florianópolis e México também estão no roteiro. O discurso otimista que o caracteriza continua à toda. Mudança climática e caos nas metrópoles? “Issopode ser resolvido quando se entender que a cidade é uma estrutura de vida e trabalho juntos. Cidades sustentáveis não separam funções, como morar aqui, trabalhar lá”, responde. “Numa cidade não existe região que não possa ser transformada. Tem de haver vontade política, visão estratégica e visão de solidariedade – e por fim montar-se uma equação de co-responsabilidade. Assim, chega-se a um estágio máximo, que é o sonho realizado. A cidade é um sonho compartilhado.”.


Conheça as obras de Jaime Lerner em:

Curitiba, Florianópolis, Chicago

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